No Brasil, inúmeros são os exemplos de empreendedores que migraram da boleia de um caminhão para o mundo dos negócios e construíram grandes empresas. Francisco Stédile, o fundador da Agrale, tem esse traço na sua biografia e foi um deles. Ele é lembrado por parceiros, familiares e colaboradores como homem obstinado, de visão aguda, que seguia sua intuição, para criar oportunidades e fazê-las acontecer.


Gaúcho do interior de São Marcos, nascido em 1922, Stédile se enveredou para o mundo do transporte, ainda muito jovem, quando começou a trabalhar como caminhoneiro. Isso foi em 1942, quando contava com apenas 20 anos. Nessa época já estava casado, havia dois anos, com Amabile Zanandrea Stédile, com quem teve cinco filhos.

Nesses tempos a indústria automobilística ainda não tinha se assanhado por estas bandas, mas quem vivia nas estradas sabia que esse era um caminho e o Brasil era um “mundo” a ser desbravado. Os caminhões que circulavam no país eram importados e careciam de manutenção. Quatro anos depois ele criou a Auto Mecânica, hoje uma concessionária Mercedes-Benz.

Nos anos 1950, Stédile juntou suas economias e foi para a Europa com o propósito de importar tecnologia. Em janeiro de 1954, com a obtenção de uma licença de uma empresa italiana ele fundou a Francisco Stédile e Cia, para a fabricação de lonas de freios e revestimentos para embalagens. Quatro anos depois a empresa já era uma S.A, bem sucedida e, em 1961, teve sua razão social alterada para Fras-le. Com o sucesso do negócio foi possível abrir novas frentes.

Em 1962, ele concretizou novo negócio na Europa e trouxe para o Brasil a Agrisa, fabricante de tratores, passando a produzir máquinas pequenas e seus motores diesel de 14,7 cv de potência, sob licença da proprietária, a marca alemã Bungartz. Depois houve outra parceria, por curto tempo e número limitado de tratores e caminhões com a Deutz-Fahr. Três anos depois Francisco Stédile adquire o controle acionário da empresa e altera a sua denominação dando origem à Agrale.

A partir de então, mesmo enfrentando os percalços da economia e os revezes do mundo dos negócios, como a crise que se abateu nos anos 1990, fazendo-o vender a Fras-le para a Randon, para estabilizar as finanças. Stédile construiu um grupo empresarial sólido com atuação nos segmentos de máquinas agrícolas, caminhões, motocicletas, utilitários 4×4, veículos militares, chassis de ônibus e motores diesel.

Hoje, comandada por Hugo Zattera, genro do fundador, a Agrale é uma empresa de atuação internacional presente na América Latina, África e Oriente Médio, somando 32 países ao todo. No Brasil são três plantas de produção, em Caxias do Sul: montadora de tratores e motores; montadora de caminhões leves e médios e chassis para micro e midibus, mais a montagem dos caminhões International; e fábrica de componentes automotivos para caminhões e tratores. Além de um Centro de Distribuição para 17 000 itens. Fora do país, na Argentina, a Agrale mantém uma planta produtiva de veículos, tratores mais pesados, motores, peças e serviços.

RETROSPECTIVA
1962 – Em 14 de dezembro a Agrale é fundada, sob a denominação de Agrisa- Indústria Gaúcha de Implementos Agrícolas S.A., para produzir pequenos tratores e seus motores movidos a diesel.

1965 – Em 14 de outubro, o Grupo Francisco Stédile adquire o controle acionário da Agrisa, transferindo-a para Caxias do Sul e alterando sua denominação para Agrale S.A Tratores e Motores. A partir de então a empresa a crescer com solidez.

1968 – Neste ano é lançado o microtrator de quatro rodas Agrale 415, o primeiro exemplar fabricado no Rio Grande do Sul, para suprir o processo de mecanização da agricultura familiar. A máquina está em produção, na atual linha 4.100, líder em sua categoria. Começa a produção de dois novos modelos de motores a diesel estacionários, de um e dois cilindros.

O 415 foi o primeiro trator fabricado no Rio Grande do Sul
1975 – A Agrale aumenta a capacidade de produção com a inauguração de fábrica própria, hoje denominada Fábrica 1, atual centro administrativo, unidade montadora de tratores e motores e de componentes.

1982 – Início do desenvolvimento do primeiro caminhão, o TX1100, o precursor da atual família de caminhões. Até o presente momento a produção ultrapassa mais de 90 mil unidades vendidas.


1983 – A Agrale inicia a produção de motocicletas e ciclomotores, após a aquisição da fábrica de ciclomotores Alpina, fruto de um acordo com a italiana Cagiva SPA. Esse negócio foi encerrado em maio de 2006, dos quais foram produzidas 100 mil unidades. A fábrica era em Manaus.

1985 – Esse ano foi marcado pelo aumento da capacidade produtiva da empresa, com a inauguração de sua nova unidade fabril, em Caxias do Sul, conhecida como Fábrica 2, uma unidade para a montagem de veículos.

1988 – A Agrale celebra acordo com a empresa alemã Deutz, dando início à fabricação de tratores pesados “Agrale Deutz”, no Brasil, e dos caminhões “Deutz Agrale”, na Argentina.

1990 – Nova unidade fabril é inaugurada em Caxias do Sul, a Fábrica 3, para a produção de cabines e componentes.

1996 – Desenvolvimento dos primeiros chassis destinado ao transporte de passageiros, projetados especialmente para micro-ônibus, que a partir de 1998, também passam a equipar os veículos Volare. A Agrale é líder de mercado neste segmento.

1997 – Lançamento de nova gama de tratores agrícolas médios, atual linha 5000, resultante de um acordo com a Zetor, fabricante europeia de tratores e motores a diesel. Outra aliança é concretizada, desta vez com a norte-americana Navistar, para a montagem de caminhões da marca Internacional para suprir o Brasil e exterior.

1998 – Começa a montagem dos caminhões médios e pesados “International”. Novo acordo é feito com a tradicional encarroçadora Marcopolo S.A, para o fornecimento de chassi para montagem dos micro-ônibus Volare, dos quais já foram produzidas mais de 40.000 unidades.

2003 – Acordo com a Lombardini, uma das maiores fabricantes mundiais de motores a diesel, para a distribuição de seus produtos e serviços no Brasil, através da Agrale.

2004 – Lançamento da família de viaturas 4×4 Agrale Marruá, destinadas ao suprimento das Forças Armadas brasileira e de segurança, bem como para o mercado civil e em serviços pesados de mineração, reflorestamento, manutenção de redes etc. Lançamento da inovadora linha de chassis para ônibus médios, complementando a linha de chassis leves.


2006 – Lançamento do primeiro trator brasileiro a admitir o uso de biodiesel. Morre Francisco Stédile, aos 84 anos.

2007 – Inovações são incorporadas às linhas de tratores e utilitários, com destaque para o lançamento do caminhão Agrale 13.000, que inicia a participação da marca no segmento de médios. Ampliação da linha Midibus, com o novo chassi de 15 toneladas.

2008 – Início das Operações da Fábrica da Agrale Argentina S.A, em Mercedes, Província de Buenos Aires, mais um marco no processo de internacionalização da empresa.

2009 – Introdução do ônibus híbrido, diesel elétrico, Agrale “Hybridus”, que apresenta uma redução de até 20% na emissão de poluentes.

2011 – É lançada a nova Geração de Caminhões Agrale 2012, com a incorporação da nova motorização Euro 5 nos caminhões, chassis e utilitários Agrale Marruá.

2012 – Apresentação na Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável – Rio + 20, do Agrale Marruá Elétrico, projeto desenvolvido em conjunto com a Itaipu Binacional e a Stola do Brasil.


2013 – Lançamento da Linha 500 de tratores Agrale, do novo trator 5105 e do Caminhão Agrale Marruá AM 41, destinado às Forças Armadas. Neste ano a marca comemora as 80 mil unidades de tratores produzidos e 100 mil veículos, no país. Ainda neste iniciou-se a produção dos tratores Agrale na unidade Agrale Argentina, sendo desenvolvido primeiramente o modelo BX 6110.

2014 – Assinatura do protocolo de intenções com o Governo do Estado de Espírito Santo e a Prefeitura de São Mateus, para a instalação da fábrica Agrale no município de São Mateus. Ampliação da linha de tratores 500, com o lançamento do modelo 540.

2015 – Apresentação da nova geração do utilitário 4×4 Agrale Marruá para aplicações severas. Lançamento do trator 4233, o primeiro trator isodiamétrico (rodados do mesmo tamanho) produzido no Brasil. Lançamento da máquina agrícola 7215, com 215 cv, o modelo de maior potência fabricado pela marca e desenvolvido para atender à agricultura empresarial, inclusive ao plantio de precisão. Morre Amabile Stédile, pouco antes de completar 100 anos.

2016 – Ampliação da gama de caminhões com três novas famílias: S (Standard) A (com a inédita cabine de aço) e LX (mais completa). Os modelos da nova gama A, A7500, A8700 e A10000, têm as cabines produzidas na China e a motorização é Cummins.