As maiores marcas de caminhões estão deixando de ser apenas fabricantes de veículos comerciais para serem provedoras de soluções de transportes. Em outras palavras, elas não querem apenas vender caminhões, mas um cardápio de serviços modernos. A Scania é uma das quem tem investido bastante nessa linha, mas com uma visão holística ou de marketing de desenvolvimento: sustentabilidade ambiental e rentabilidade para seus clientes.

Scania criou empresa de transporte para sentir na “pele” necessidades e desafios de clientes e testar soluções

“Só teremos rentabilidade se os nossos clientes também tiverem”, comenta Christopher Podgorski, brasileiro que já foi diretor-geral da Scania Brasil e está há cerca de quatro anos como vice-presidente mundial de vendas e marketing de caminhões Scania, sediado na matriz, em Södertälje, na Suécia.

Para conhecer as necessidades dos transportadores a fundo, a Scania decidiu também entender e atender as necessidades dos embarcadores que contratam transporte. Christopher lembra que os clientes das transportadores, muitas vezes, são grandes indústrias globais que estão comprometidas com a redução de emissões de poluição e ganhos de eficiência. Portanto, rentabilidade e sustentabilidade precisam andar de mãos dadas e a eficiência do transporte é fundamental para alcançar tais resultados.

Transport Laboratory

Para sentir na “pele” os problemas e desafios que os transportadores sentem, a Scania criou uma transportadora própria, a Scania Transport Laboratory. Outra função dessa subsidiária é auxiliar a fabricante a desenvolver e testar todas as soluções criadas pela companhia, como testar novos caminhões, tecnologias, combustíveis alternativos, serviços de manutenção, conectividade, treinamento de motoristas etc, tudo isso em situações reais da operação logística.

Para conhecer a transportadora própria e os resultados já alcançados, TRANSPORTE MUNDIAL visitou a sede da Scania Transport Laboratory em Södertälje, na Suécia, mesma cidade onde ficam a matriz da companhia, centro tecnológico e principal fábrica da marca no mundo.

O Scania Transport Laboratory trabalha apenas para a própria Scania e, mesmo assim, é responsável por no máximo 10% do transporte de componentes entre unidades de produção na Suécia e Zwolle, nos Países Baixos. A transportadora também faz o transporte de funcionários entre as instalações de Södertälje e a capital Estocolmo, distante 35 km.

A frota do laboratório

Para isso, a empresa possui uma frota com 20 caminhões de distribuição, 14 cavalos mecânicos de longa distância e cinco ônibus, com idade média de dois anos. Ainda há os caminhões que ficam exclusivamente em testes exclusivos. A manutenção desses veículos é feita em concessionárias da marca, quando também são avaliados os serviços e o tempo de sua execução, que precisam ser feitos em no máximo duas horas na manutenção preventiva e, no máximo, três horas caso algo ocorra fora do previsto.

Cerca de 67 motoristas trabalham na Scania Transport como contratados e mais de 20 como terceirizados. Desse total, 20% são mulheres. Uma das caminhoneiras é a Andréa Pedersen de 22 anos. Ela escolheu a profissão ao terminar os estudos do ensino fundamental, com 16 anos, e optou pela escola técnica de caminhoneiro, curso válido pelo ensino médio, que existe na Suécia. A formação dura três anos, tornando o motorista altamente qualificado para a profissão.

Os 14 cavalos mecânicos rodam cerca de 400.000 km por ano, sempre puxando dois trailers cada. Para alcançar tal quilometragem, os veículos rodam com uma média 3,5 motoristas por caminhão, 24 horas por dia e sete dias por semana. A velocidade máxima é de 80 km/h e a média fica em 74 km/h. Vale lembrar que a região é plana. Desses 14 cavalos mecânicos, 11 são Scania e três são modelos concorrentes (Mercedes-Benz, Volvo e MAN).

Os caminhões de distribuição rodam cerca de 30.000 km por ano, com média 1,5 motorista por veículo, velocidade máxima limitada a 80 km/h e média de 28 km/h. Os ônibus rodam cerca de 100.000 km por ano, tendo também uma média de 1,5 condutor por veículo. A velocidade máxima permitida é de 100 km/h e a média é de 46 km/h.

Transportadora laboratório da Scania possui 14 cavalos mecânicos para longa distância, sendo três de marcas concorrentes

Com relação ao consumo de combustível da frota, a Scania Transport Laboratory apurou que a média é de 3,8 km/h, enquanto a média na Suécia fica 3,3 km/l. A média dos 10 melhores motoristas da transportadora é de 4,5 km/h e a melhor média já alcança foi de 5 km/h.

Outro experimento feito pela transportadora laboratório foi comparar viagens com velocidade constante de 90 km/h com 80 km/h. Indo a 90 km/h, o ganho em tempo foi de apenas 1%, porém, o aumento de consumo de combustível foi de 10%, houve acréscimo do custo de manutenção e de risco de acidente em 40%. Conclusão, não compensa o ganho de tempo com o aumento da velocidade em 10 km/h. Todo o conhecimento obtido pela Scania Laboratory são repassados aos clientes da marca.

Viagem em comboio

No Brasil, já é bastante conhecido o piloto automático, tecnologia presente praticamente em todos os caminhões produzidos com a tecnologia Euro 5, do final de 2012 para cá. Este piloto automático mantém o caminhão em velocidade constante para que o motorista possa descansar o pé do acelerador.

Caminhões conectados são acompanhados 24 horas por dia pela internet

Atualmente, os caminhões mais modernos já contam com a tecnologia do piloto automático inteligente. Trata-se de um sistema que, por meio de sensores e radares, consegue acelerar e frear o caminhão conforme distância preestabelecida do veículo à frente. Graças ao piloto automático inteligente, a Scania tem feito experimentos com viagens em comboio que pode ser formado com dois a sete caminhões.

O motorista do primeiro caminhão dita o ritmo da viagem, controlando aceleração e freio. Os demais caminhões seguem atrás mantendo uma distância do veículo à frente e seus motoristas apenas cuidam da direção e assumem o comando total no momento em que é desfeito o comboio. A distância entre os conjuntos é segura, mas o suficiente para diminuir a turbulência e melhorar a aerodinâmica. O resultado é uma economia de combustível de até 12% por veículo.

Motorista pode acompanhar e analisar informações de seu desempenho ao volante por meio de relógio inteligente

O mesmo teste já foi realizado pela Mercedes-Benz e o resultado de economia foi o mesmo. No caso da Mercedes-Benz, a experiência foi feita com Actros semiautônomos, porém, o conceito de conseguir melhorar a aerodinâmica é o mesmo. A diferença do comboio com caminhões com piloto automático inteligente é que o motorista precisa segurar o volante e no veículo semiautônomo, o motorista não faz nada enquanto os veículos estão na formação de comboio conectados por outras tecnologias digitais, como Wi-Fi e satélites, além dos sensores e radares do piloto automático. A Scania também possui esta tecnololgia de veículos autônomo.

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Editor da revista e site Transporte Mundial desde fevereiro de 2002. Além de caminhões, é apaixonado por motocicletas e economia! Foi coordenador de comunicação na TV Globo, assessor de imprensa na então Fiat Automóveis, hoje FCA, e editor-adjunto do Caderno de Veículos do Jornal Hoje Em Dia, de Belo Horizonte (MG).