A falta de motoristas profissionais é um dos desafios que mais preocupam o transporte rodoviário brasileiro. Para André Oliveira, CEO e cofundador da Motorista PX, no entanto, discutir o problema apenas pelo número de profissionais disponíveis não é suficiente. Na avaliação do executivo, é preciso olhar também para as condições oferecidas a quem está na estrada e, principalmente, para a valorização do motorista.
Oliveira defende que parte do problema está na perda de atratividade da profissão. Segundo ele, durante muito tempo o caminhoneiro esteve associado à liberdade, às viagens e à possibilidade de conhecer diferentes lugares. Com a transformação do transporte em um negócio cada vez mais estruturado, porém, essa relação teria mudado. “Um motorista de caminhão no Brasil não tem vida. Ele fica dois, três meses fora de casa”, afirma.
Para o executivo, a distância da família, a falta de autonomia sobre onde parar, comer ou descansar e as condições encontradas ao longo das rodovias contribuem para afastar profissionais da atividade. Por isso, o Motorista PX foi criada com a proposta de devolver ao motorista parte do poder de decisão sobre seu trabalho.
Autonomia na escolha do contrato
A proposta do Motorista PX funciona a partir da conexão entre transportadores e motoristas. De um lado, a empresa de transporte cadastra suas necessidades, informando características como período do contrato, tipo de caminhão e carga. Do outro, o motorista pode visualizar as oportunidades disponíveis e escolher aquelas que fazem mais sentido para sua rotina.
Na prática, a ideia é substituir um modelo em que o profissional recebe uma escala determinada pela empresa por uma dinâmica em que ele tenha acesso a diferentes opções. “Ele tem liberdade de escolha e escolhe inclusive o valor que vai receber, porque tem várias propostas na mão”, explica Oliveira.
Assim, um motorista que precisa estar em casa em determinada data, por exemplo, poderia optar por um contrato mais curto ou por viagens que permitam uma rotina diferente. Para a Motorista PX, essa autonomia é um dos elementos que podem tornar novamente a profissão mais atrativa. A empresa afirma ainda que não cobra do motorista pelo uso da plataforma.
Falta de motorista: retorno do “brilho” à profissão
Para Oliveira, a valorização do motorista precisa ir além do discurso. Ela passa por oferecer condições para que o profissional consiga conciliar trabalho e vida pessoal.
O executivo cita como exemplo o motorista que precisa participar de um aniversário de casamento, acompanhar um compromisso familiar ou simplesmente voltar para casa com maior frequência. Na visão dele, a possibilidade de escolher contratos compatíveis com esses compromissos pode fazer diferença na decisão de permanecer ou não na profissão. “Devolver o brilho da profissão” é justamente uma das expressões usadas pelo CEO para definir a proposta da empresa.
A lógica também se relaciona com uma mudança no perfil dos trabalhadores. Segundo Oliveira, profissionais de diferentes setores passaram a valorizar mais autonomia e flexibilidade. Para ele, o transporte precisa acompanhar essa transformação se quiser atrair novos motoristas.
Uma alternativa para o transportador
Embora a proposta tenha o motorista como foco, a Motorista PX também busca resolver uma dificuldade enfrentada pelas empresas de transporte: adaptar a quantidade de mão de obra à variação da demanda. Segundo Oliveira, a sazonalidade é um dos grandes desafios do setor. Em períodos de maior movimento, a transportadora precisa de mais motoristas. Quando a demanda diminui, entretanto, manter uma estrutura fixa de mão de obra pode elevar os custos.
Nesse cenário, a empresa apresenta seu modelo como uma possibilidade de transformar parte desse custo em variável, permitindo ampliar ou reduzir a contratação conforme a necessidade operacional. Na avaliação do executivo, o modelo também pode reduzir alguns dos custos associados à contratação tradicional.
O motorista autônomo também entra na equação
Outro público que pode encontrar espaço na plataforma, segundo Oliveira, são motoristas que possuem caminhões antigos e enfrentam dificuldades para manter o veículo rentável. A proposta é permitir que esse profissional continue atuando como motorista mesmo sem depender exclusivamente do próprio caminhão. Dessa forma, ele poderia deixar o veículo parado ou avaliar a venda do caminhão e buscar oportunidades utilizando veículos disponibilizados pelos transportadores.
Para Oliveira, isso pode representar uma mudança importante. O caminhoneiro que possui um veículo antigo precisa arcar sozinho com combustível, pneus, manutenção, seguro e outros custos. Como não tem o mesmo poder de negociação de uma grande transportadora, esses gastos podem comprometer sua rentabilidade. “Ele é um motorista e ele é só um”, afirma o executivo, ao comparar o poder de negociação de um autônomo com o de uma empresa que possui uma frota maior.
A avaliação da Motorista PX é que, ao separar o trabalho de motorista da propriedade do caminhão, o profissional pode voltar a concentrar sua atividade na direção.
Efeito sobre a renovação da frota
Essa mudança, segundo Oliveira, já estaria produzindo outro efeito. De acordo com ele, alguns profissionais que possuem caminhões mais antigos estariam deixando de utilizar esses veículos e migrando para oportunidades oferecidas pela plataforma. Ao mesmo tempo, transportadores estariam se sentindo mais seguros para investir na compra de caminhões, já que teriam uma alternativa para encontrar motoristas. A consequência, na visão da empresa, pode ser uma transformação gradual do perfil da frota.
Um caminhoneiro que deixa de gastar recursos continuamente para manter um veículo antigo poderia, por exemplo, direcionar esse dinheiro para outros objetivos ou planejar a aquisição de um caminhão mais novo. Para as transportadoras, a possibilidade de contratar motoristas conforme a demanda também poderia favorecer investimentos em capacidade operacional.
Atração de novos motoristas
Para André Oliveira, combater a falta de motoristas também significa recuperar profissionais que deixaram a atividade e atrair uma nova geração. Ele cita como exemplo pessoas que migraram para aplicativos de transporte. Segundo uma pesquisa interna da Motorista PX mencionada pelo executivo, uma parcela significativa desses profissionais possui habilitação para conduzir veículos de carga.
Na interpretação da empresa, isso mostra que o problema não seria necessariamente a falta de pessoas interessadas em dirigir, mas a falta de um modelo de trabalho que ofereça a autonomia buscada por esses profissionais. A estratégia, portanto, seria mostrar que o motorista pode continuar trabalhando com caminhão sem necessariamente abrir mão de flexibilidade. “Eu ainda gosto de dirigir, mas o caminhão não estava conseguindo ganhar dinheiro”, resume Oliveira ao explicar o movimento de profissionais para outras modalidades.
Motoristas mais experientes também podem voltar
A proposta inclui ainda profissionais que já estão aposentados ou próximos da aposentadoria. Em vez de retornar a uma rotina de longos períodos fora de casa, a ideia seria oferecer contratos mais curtos, permitindo que o motorista trabalhe por alguns dias ou semanas e depois volte para casa.
Para Oliveira, essa pode ser uma maneira de aproveitar a experiência de profissionais que deixaram as estradas justamente porque não queriam mais enfrentar períodos prolongados longe da família. O argumento ganha relevância diante do envelhecimento da mão de obra do transporte rodoviário. Trazer profissionais experientes de volta, ainda que por períodos menores, pode ser uma alternativa para ampliar a disponibilidade de motoristas sem necessariamente submetê-los à mesma rotina que os levou a deixar a profissão.
Mulheres também estão no radar
A Motorista PX também vê espaço para ampliar a participação feminina no transporte rodoviário. Oliveira afirma que a empresa já possui mulheres cadastradas e defende que a autonomia para escolher contratos pode ser especialmente importante para esse público.
Ao mesmo tempo, ele chama atenção para uma questão da falta de infraestrutura nas rodovias que ultrapassa a contratação. Banheiros, locais de descanso, segurança e condições adequadas nos pontos de parada ainda precisam acompanhar a entrada de mais mulheres na profissão. Na avaliação do executivo, não basta criar oportunidades para que elas sejam motoristas se a estrutura da cadeia logística não estiver preparada para recebê-las.
A discussão, portanto, vai além da plataforma. Se o setor quer ampliar a participação feminina e atrair novos profissionais, também precisa discutir as condições oferecidas na estrada.
O motorista no centro da solução
Para André Oliveira, a falta de motoristas é consequência de uma transformação maior no mercado de trabalho e no próprio consumo. O crescimento das compras pela internet, por exemplo, aumentou a necessidade de entregas rápidas e, consequentemente, ampliou a demanda por transporte. Ao mesmo tempo, segundo ele, a mão de obra passou a buscar mais autonomia.
É nesse ponto que a Motorista PX pretende atuar. A empresa aposta em um modelo no qual o motorista tenha acesso a diferentes oportunidades e possa escolher aquelas que melhor se encaixam em seus interesses, enquanto as transportadoras encontram profissionais de acordo com suas necessidades.
A tecnologia, nesse caso, é apenas uma parte da proposta. O principal argumento defendido pela empresa é que, para atrair e manter motoristas, o setor precisa voltar a olhar para esses profissionais como parte central do negócio. A falta de motoristas, portanto, pode exigir mais do que formar novos profissionais. Pode exigir também mudanças na maneira como eles trabalham, são remunerados e conseguem conciliar a estrada com a vida fora dela.
Para Oliveira, essa é a chave para recuperar a atratividade da profissão, dar ao motorista mais autonomia, melhores oportunidades e, principalmente, a possibilidade de continuar tendo uma vida enquanto trabalha na estrada.
Academia prepara motorista antes da operação
A proposta de valorização defendida pela Motorista PX também passa pela qualificação dos profissionais. Antes de estar disponível para os contratos da plataforma, o motorista precisa cumprir etapas de cadastro, análise e treinamento na Academia PX. De acordo com André Oliveira, o processo começa com o cadastro no aplicativo. A empresa faz uma pré-análise das informações apresentadas pelo profissional e, depois, ele passa pela formalização como MEI. Na sequência, realiza os treinamentos da Academia PX e, cumpridas as etapas, fica apto a se candidatar às oportunidades disponíveis.
Oliveira destaca que o treinamento não acontece apenas no momento de entrada. Segundo ele, o motorista recebe capacitações recorrentes e também pode passar por novos treinamentos quando ingressa em uma operação diferente. A proposta é manter a qualificação como parte da rotina profissional. Para a empresa, esse acompanhamento também cria um histórico que pode ser considerado pelos transportadores na hora de escolher um motorista.
A plataforma também considera a existência de um ecossistema de empresas na região onde o motorista está localizado. Segundo Oliveira, são necessárias pelo menos duas empresas utilizando o Motorista PX para que seja possível oferecer diferentes oportunidades ao profissional. A lógica está relacionada justamente à proposta de autonomia defendida pela empresa. Em vez de concentrar o motorista em uma única operação, a plataforma busca oferecer diferentes contratos para que ele possa escolher de acordo com seu perfil e disponibilidade.
Segundo Oliveira, a Motorista PX possui atualmente cerca de 700 mil motoristas cadastrados, mas aproximadamente 20 mil estariam aptos a rodar nas regiões em que já existe esse ecossistema de empresas. A companhia está trabalhando para ampliar a presença da plataforma nas cidades brasileiras.
Histórico como ferramenta de seleção
Outro componente do ecossistema é a utilização de dados sobre o profissional. A Motorista PX possui a Radar PX, unidade voltada à consulta de informações, que, segundo Oliveira, contribui para formar um histórico do motorista dentro da plataforma. A ideia é que o transportador não dependa apenas de um currículo apresentado pelo candidato. Ao longo das operações, o comportamento e o desempenho do profissional podem formar um histórico de referência.
Para a empresa, essa é uma das diferenças em relação aos processos tradicionais de contratação. Em vez de analisar somente as informações apresentadas no momento da contratação, o transportador pode ter acesso a dados acumulados durante a atuação do motorista na plataforma.
Ajudante também faz parte do ecossistema
A proposta da Motorista PX não se limita ao motorista. Os ajudantes também fazem parte do modelo e passam por processos de qualificação. Segundo Oliveira, esse profissional pode atuar em diferentes etapas da operação logística e também representa uma porta de entrada para quem deseja futuramente se tornar motorista.
A empresa chama esse movimento de “upgrade” já que o ajudante pode ser treinado e, posteriormente, buscar a qualificação necessária para atuar como motorista. Para o Motorista PX, essa possibilidade ajuda a criar uma espécie de ciclo de formação de mão de obra dentro do próprio setor.
Formação começa antes da cabine
Outra iniciativa citada pelo executivo é o Instituto Motorista do Futuro, criado com o objetivo de atuar na formação de novos profissionais e na aproximação da próxima geração com a atividade. Segundo Oliveira, o instituto pretende desenvolver projetos voltados à formação de motoristas, incluindo ações para facilitar o acesso à habilitação e iniciativas que aproximem profissionais experientes de pessoas que estão começando na carreira.
A proposta é enfrentar um dos pontos mais difíceis da atual falta de mão de obra: as empresas precisam de motoristas experientes, enquanto os novos profissionais precisam justamente de uma oportunidade para adquirir experiência. Nesse modelo, o instituto pretende financiar projetos em que motoristas experientes possam contribuir na formação dos iniciantes.
O projeto ainda está em fase de estruturação e captação de empresas participantes, portanto, seus resultados ainda não podem ser medidos. A iniciativa, porém, mostra que, para a Motorista PX, combater a falta de motoristas exige atuar também na formação de novos profissionais. No fim, a estratégia da empresa reúne diferentes frentes a de conectar motoristas e transportadores, oferecer capacitação, criar histórico profissional e ampliar o acesso de novos trabalhadores à atividade.











