Movimentos sociais no transporte ajudam a enfrentar a falta de motoristas

0

Os movimentos sociais no transporte ganharam um papel estratégico diante de um dos maiores desafios do setor, a falta de motoristas qualificados. Mais do que ações de marketing, iniciativas como A Voz Delas e Embaixadores das Estradas, desenvolvidas pela Mercedes-Benz do Brasil, buscam promover mudanças culturais, ampliar a diversidade, aproximar a indústria dos profissionais e incentivar a renovação da mão de obra.

Afinal, atrair novos motoristas exige muito mais do que oferecer um bom caminhão. É preciso melhorar as condições de trabalho, ouvir quem está na estrada e mostrar que a profissão pode oferecer oportunidades de desenvolvimento, reconhecimento e qualidade de vida.

Movimentos sociais no transporte vão além da imagem da marca

A escassez de motoristas é uma realidade compartilhada por fabricantes, transportadoras e entidades do setor. Diante desse cenário, a Mercedes-Benz passou a investir em projetos que aproximam a empresa dos profissionais e criam um canal permanente de diálogo.

Um dos exemplos é o programa Embaixadores das Estradas, lançado em 2025 para substituir o antigo conceito da “Voz das Estradas”, representado pelo colaborador João Moita.

Segundo Isabela Escudeiro, analista de Marketing de Caminhões da Mercedes-Benz do Brasil, a proposta evoluiu para representar melhor a diversidade do transporte.

“A gente expandiu esse conceito para trazer motoristas homens, mulheres, profissionais mais jovens e mais experientes. O objetivo é representar diferentes perfis e aproximar ainda mais a fábrica da realidade das estradas.”

Hoje, os chamados Master Drivers produzem conteúdos para redes sociais, participam de eventos, apresentam produtos e, principalmente, mantêm contato direto com caminhoneiros e operadores.

Mais do que divulgar veículos, eles levam para dentro da fábrica sugestões, críticas e necessidades observadas na rotina dos profissionais.

Escutar quem está na estrada também gera inovação

Esse contato constante já trouxe resultados concretos. Entre eles estão melhorias apontadas por usuários de ônibus elétricos relacionadas ao sistema de regeneração e mudanças em produtos da linha de caminhões. 

Um exemplo citado por Isabela foi o caminhão especial criado para o projeto Estrela Delas. Inicialmente, o modelo era apenas demonstrativo. Entretanto, o grande interesse do público fez a fabricante transformá-lo em um veículo comercial.

“Recebemos tantos pedidos que o modelo passou a ser vendido. Além disso, os clientes solicitaram novas cores e outras características, que foram levadas para a engenharia.” Segundo ela, esse processo mostra que ouvir os motoristas ajuda a desenvolver produtos mais alinhados às necessidades do mercado.

Redes sociais ajudam a aproximar os jovens da profissão

Outro objetivo dos movimentos sociais no transporte é despertar o interesse das novas gerações. A estratégia utiliza conteúdos digitais, bastidores da rotina dos motoristas, tendências das redes sociais e vídeos técnicos para apresentar o universo dos caminhões de maneira mais próxima do público jovem.

Embora o projeto ainda esteja em fase de consolidação, Isabela afirma que os resultados começam a aparecer. “Hoje nosso principal foco está nas redes sociais. Temos recebido muitos comentários de jovens interessados nos caminhões, especialmente depois de alguns conteúdos que viralizaram.”

A expectativa é ampliar essa comunicação por meio de novos canais e fortalecer ainda mais a aproximação entre fábrica e motoristas.

A Voz Delas transforma inclusão em ações práticas

Se o Embaixadores das Estradas trabalha a conexão com os profissionais, o movimento A Voz Delas atua diretamente na transformação da cultura do transporte. Criado em 2019, o programa nasceu para enfrentar barreiras que dificultavam a entrada e a permanência das mulheres na profissão.

Segundo Raniely Moreira, coordenadora do movimento A Voz Delas, o projeto surgiu ao identificar problemas recorrentes como assédio, falta de infraestrutura, preconceito e poucas oportunidades de trabalho.

“Percebemos que muitas mulheres queriam entrar na profissão, mas encontravam diversas dificuldades. Então criamos um movimento para dar voz a essas profissionais e incentivar empresas a abrirem espaço para elas.”

Hoje, o movimento reúne cerca de 65 empresas parceiras e atua junto a transportadoras, postos de combustíveis, entidades de classe e órgãos públicos para promover mudanças estruturais no setor.

Capacitação também faz parte da mudança cultural

Além da conscientização, o projeto investe diretamente na formação profissional.

Por meio da iniciativa Na Direção dos Seus Sonhos, o movimento já concedeu 57 CNHs, acompanhadas de cursos de capacitação para mulheres que desejavam ingressar no transporte.

Outra ação importante foi a criação da comunidade Eu Sou A Voz Delas, que atualmente reúne mais de 2 mil mulheres, entre motoristas de caminhão, condutoras de ônibus, profissionais de RH, lideranças do setor e esposas de caminhoneiros. Segundo Raniely, esse ambiente facilita a troca de experiências, promove pesquisas e amplia o acesso a cursos, treinamentos e oportunidades.

Movimentos sociais no transporte também colocam a saúde do motorista em pauta

Os movimentos sociais no transporte também começam a ampliar o olhar para a saúde dos profissionais. Um exemplo é o projeto Revisão Completa, criado pela Mercedes-Benz para aproveitar o momento da revisão do caminhão nas concessionárias e oferecer atendimento dermatológico aos motoristas.

A iniciativa surgiu a partir da percepção da empresa sobre um problema recorrente entre os profissionais das estradas: a baixa procura por cuidados preventivos, especialmente entre os homens.

Segundo Isabela Escudeiro, embora uma pesquisa tenha chamado a atenção para o tema, a ideia nasceu principalmente da convivência com os próprios motoristas. “O Revisão Completa não surgiu por causa da pesquisa. Ele nasceu porque a gente começou a observar essa realidade e escutar o nosso público. A gente percebeu que precisava olhar também para a saúde dos motoristas.”

Durante a entrevista, Isabela destacou um levantamento que aponta que 83% dos motoristas homens apresentam propensão ao desenvolvimento de doenças de pele no lado esquerdo do corpo, região mais exposta ao sol durante a condução.

Para ela, o dado apenas reforçou uma preocupação que a equipe já havia identificado. “Quando vimos esses números, eles confirmaram algo que já observávamos. Então entendemos que precisávamos fazer alguma coisa.”

A proposta do programa é simples: enquanto o caminhão passa pela revisão programada, o motorista recebe uma consulta dermatológica gratuita e orientações sobre prevenção, além de um kit com protetor solar.

Segundo a executiva, a iniciativa já apresentou resultados relevantes. “Muitos motoristas nunca tinham passado por um dermatologista. Em uma das primeiras ações, um participante descobriu lesões com células cancerígenas na pele e conseguiu iniciar o tratamento.”

O projeto começou em uma concessionária da marca, mas a expectativa é expandi-lo para toda a rede da Mercedes-Benz, que conta com cerca de 180 concessionárias no Brasil.

“Queremos ampliar o Revisão Completa para todo o País. Nosso objetivo é conscientizar os motoristas de que o protetor solar não é uma questão estética, mas de saúde.”

Isabela reforça que o programa atende homens e mulheres, embora o alerta tenha surgido a partir de um levantamento focado no público masculino.

“A pesquisa era voltada aos homens porque eles representam a maior parte dos motoristas, mas o nosso foco é cuidar da saúde de todos os profissionais. Afinal, são eles que movimentam o Brasil.”

Infraestrutura também influencia a permanência na profissão

Os movimentos sociais no transporte também mostram que valorizar o motorista passa pela melhoria dos locais de apoio. Nos últimos anos, empresas parceiras passaram a investir em espaços mais adequados para receber profissionais durante as viagens.

Entre os exemplos citados está um centro logístico em Santo André, que criou uma área exclusiva para caminhoneiras, equipada com banheiro, chuveiro, espaço para café, wi-fi e até ambiente destinado à amamentação.

Outra iniciativa envolve postos de combustíveis parceiros, que passaram a oferecer áreas de descanso, espaços de convivência e estrutura voltada ao bem-estar dos motoristas.

Para Raniely, essas melhorias beneficiam homens e mulheres e ainda fortalecem os próprios negócios. “Quando um motorista encontra uma boa infraestrutura, ele volta e recomenda aquele local para outros colegas. É um trabalho de conscientização que acontece aos poucos, mas já apresenta resultados importantes.”