O Regional Center América Latina (RCAL) da Mercedes-Benz vive uma fase de protagonismo técnico. A unidade, sediada em São Bernardo do Campo (SP), assumiu o desenvolvimento de soluções específicas de ônibus para mercados que exigem desempenho em altitudes elevadas, vias com gelo, uso intenso de sal, estradas estreitas e operação severa. Como resultado, a engenharia brasileira passou a entregar produtos muito distintos do portfólio tradicional vendido na Europa ou nos Estados Unidos.
Além disso, o RCAL liderou o projeto do novo O 500 latino-americano conhecido como o “El Más Potente”, idealizado desde 2018 e já operando no Chile e Peru. O modelo recebeu reforços estruturais, motor mais potente, câmbio automatizado e um pacote de segurança ampliado, justamente para atender condições que não existem no Brasil. Enquanto a maior cidade em altitude brasileira mal chega a 1.600 metros, Campos do Jordão, países vizinhos operam veículos em cordilheiras acima de 4.000 metros, exigindo torque maior, freios mais robustos e sistemas eletrônicos mais precisos.

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Ao mesmo tempo, a Mercedes-Benz reforçou a proteção anticorrosiva aplicada no chassi, já que vários países utilizam sal nas pistas para derreter gelo. Esse material, diferente do sal convencional, destrói rapidamente estruturas metálicas. Assim, para evitar deterioração precoce, a engenharia criou um processo exclusivo de anticorrosão aplicado ainda na linha de montagem.
Entretanto, mesmo com essas exigências técnicas, a marca afirma que precisa manter competitividade. A presença de ônibus chineses em licitações nos países vizinhos da América Latina pressiona preços e força a Mercedes a buscar equilíbrio entre tecnologia avançada e custos acessíveis.
Por isso, a empresa aposta em padronização eletrônica e integração mais profunda entre chassi e carroceria, um fator que, segundo Augusto França, gerente de vendas e marketing do RCAL, define qualidade e confiabilidade no produto final. Confira a entrevista.
Adaptação ao mercado latino-americano
O que diferencia o desenvolvimento de ônibus Mercedes-Benz para a América Latina em relação ao Brasil?
A América Latina exige veículos muito diferentes. No Brasil, a operação acontece em altitudes baixas, com poucas variações de terreno. Porém, nos Andes, o ônibus roda o tempo todo em subida, com grandes desníveis e clima severo. Por isso, desenvolvemos motores mais potentes, transmissões específicas e configurações que entregam força constante. Então, em 2018, criamos um O500 totalmente pensado para essas rotas.
Desafios de clima, altitude e corrosão
Como nasceu o processo especial de proteção anticorrosiva?
Quando testamos nossos ônibus em países que usam sal granulado para derreter gelo, percebemos que o material destruía o chassi muito rápido. Isso não tem comparação nem com maresia. Então, nossa engenharia criou um processo anticorrosivo exclusivo, aplicado ainda na fábrica. Ele protege toda a estrutura inferior do veículo. Hoje, somos os únicos a usar essa tecnologia nesse formato.
Especificações sob medida
Cada país recebe uma configuração completamente diferente?
Sim. Trabalhamos com Euro 3, Euro 5 e Euro 6, cada um com eletrônica, potência e relações de transmissão específicas. A topografia define tudo. Por isso, não mantemos grandes estoques. O ônibus já nasce configurado para aquele país: freio, potência, câmbio e até chicote elétrico mudam de acordo com altitude, temperatura e terreno.
Confira o episódio completo com essa entrevista no @vozesdotransporte no Youtube
Nesse sentido, por que a padronização eletrônica entre Euro 3, 5 e 6 foi tão importante?
Porque permitiu acelerar inovações. Com arquiteturas diferentes, não dava para aplicar frenagem automática ou câmbio mais avançado nos modelos com tecnologia menos atual. Assim, agora, como todos usam a mesma base eletrônica, lançamos novidades de forma muito mais rápida. Mesmo países que continuam no Euro 3 ou Euro 5 recebem uma eletrônica moderna, mais rápida e mais segura.
Chassi + carroceria: integração vital para a Mercedes-Benz
Como funciona a relação com as encarroçadoras?
É totalmente integrada. Chassi e carroceria saem de notas fiscais diferentes, mas, para o cliente, é um produto só. Dessa forma, trabalhamos lado a lado com as encarroçadoras. Ajustamos posição de radiador, entradas de ar, módulos, tudo para evitar problemas futuros. Quando algo ocorre, não importa se é do chassi ou da carroceria. Ou seja, a responsabilidade é nossa, porque o cliente comprou um ônibus Mercedes-Benz.
Segurança, tecnologia treinamento
O cliente latino-americano está pronto para sistemas avançados de segurança?
Cada vez mais. Hoje, oferecemos para aqueles mercados o ABA 5, com frenagem automática, leitura de faixa, farol alto automático e câmbio automatizado. O objetivo é padronizar consumo, reduzir erro humano e aumentar segurança. Entretanto, nenhum sistema substitui o motorista por isso também investimos no treinamento. Ele continua essencial. Mas, quando o veículo reage milissegundos antes, evita acidentes graves.
O treinamento do motorista evoluiu junto com a tecnologia?
Criamos o “Treinar o Treinador”. Treinamos técnicos das concessionárias, que depois treinam os motoristas dos clientes. Assim, o condutor entende o sistema, opera o câmbio automatizado corretamente e aproveita os recursos de segurança. Isso reduz consumo e desgaste e aumenta a vida útil do veículo.
Concorrência chinesa e política de preços
Os chineses mudaram o jogo nas licitações na América Latina?
Mudaram. No urbano, onde o preço decide a compra, é difícil competir. A vantagem é que o Brasil tem proteção que evita a entrada massiva de produtos muito baratos, porque isso colocaria toda a cadeia automotiva em risco. Mas mesmo assim, buscamos manter preços alinhados aos concorrentes locais, sem repassar todo o custo do desenvolvimento.
Tendências e novos desenvolvimentos
A Mercedes continuará criando soluções exclusivas para a América Latina?
Sim. A demanda existe e cresce. As operações são severas, os percursos são longos e as condições, extremas. Por isso, seguimos investindo em motores mais potentes, sistemas de segurança e atualizações eletrônicas. O novo O 500 já mostra esse caminho. Ele nasceu no Brasil, mas roda no Chile, no Peru, na Colômbia e em outros mercados que exigem força e segurança em altitude.











