O mercado brasileiro de caminhões e ônibus segue distante da recuperação. Tanto que, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o País perdeu, nos últimos anos, um volume de vendas de caminhões equivalente ao tamanho de todo o mercado argentino. A comparação, feita pelo presidente da entidade, Igor Calvet, resume a dimensão da retração enfrentada pelo setor, que ainda sofre os efeitos do crédito caro, da desaceleração do agronegócio e do aumento dos custos do transporte.
Diante desse cenário, a Anfavea revisou para baixo suas projeções para 2026. Agora, a entidade estima que os emplacamentos de veículos pesados, categoria que reúne caminhões e ônibus, fecharão o ano com retração de 6%, ante uma previsão anterior de queda de apenas 0,5%. Assim, o mercado deve encerrar 2026 com 129,2 mil unidades, contra 137,4 mil veículos comercializados em 2025.
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Segundo Calvet, os programas de Move Brasil 1 e 2 cumpriram um papel importante ao reduzir a velocidade da queda. No entanto, eles não conseguiram mudar a direção do mercado.
“Nós perdemos praticamente um mercado argentino de caminhões. Os programas foram muito bem-vindos porque diminuíram a intensidade da queda. Mas aquilo que estava muito ruim continua.”
Move Brasil 2 reduz perdas, mas não reverte o cenário
Desde o início do ano, o mercado de caminhões passou por uma melhora gradual. Em janeiro, o acumulado registrava retração de 31,5%. Seis meses depois, essa queda caiu para 10,5%.
Na avaliação da Anfavea, essa evolução ocorreu graças às linhas especiais de crédito disponibilizadas pelo governo federal. Somados, esses programas injetaram aproximadamente R$ 30 bilhões em financiamentos para caminhões. Além disso, o Move Brasil 2 também contemplou ônibus e implementos rodoviários.
Apesar desse alívio, Calvet afirma que o mercado ainda depende fortemente das condições econômicas.
“Os programas reduziram a queda e cumpriram seu papel. Entretanto, eles não conseguiram transformar o mercado em positivo”, avaliou Calvet.
Além disso, praticamente todos os recursos destinados às empresas transportadoras já se esgotaram. Restam apenas os financiamentos direcionados aos caminhoneiros autônomos. Dessa forma, a entidade acredita que os emplacamentos continuarão crescendo por mais dois ou três meses, período necessário para a entrega dos veículos já negociados.
Junho marca primeira alta em mais de um ano
Embora o acumulado permaneça negativo, junho trouxe um sinal considerado importante para o setor. Ou seja, pela primeira vez desde março de 2025, os emplacamentos mensais de caminhões superaram os registrados no mesmo mês do ano anterior.
Foram 9,8 mil unidades licenciadas em junho de 2026, contra 8,5 mil caminhões em junho de 2025, avanço de 14,7%.
Mais do que isso, 76% desse crescimento veio dos caminhões pesados, segmento diretamente beneficiado pelas linhas de financiamento do Move Brasil 2.
Segundo Igor Calvet, esse resultado demonstra que os programas surtiram efeito. Porém, ele ressalta que a recuperação ainda depende do comportamento da economia no segundo semestre.
Juros altos continuam travando a renovação da frota
Mesmo com o aumento das vendas em junho, a Anfavea avalia que o ambiente para investimentos permanece desfavorável.
A entidade revisou sua expectativa para a taxa Selic ao final do ano, saindo de 15% para 14%. Mesmo assim, o custo do financiamento continua elevado justamente para um segmento que depende fortemente do crédito.
Além dos juros, Calvet destaca outros fatores que limitam a renovação das frotas. O agronegócio ainda enfrenta elevado nível de endividamento, margens menores e preços mais baixos para diversas commodities. Ao mesmo tempo, transportadoras convivem com aumento do diesel, reajustes de pedágios e elevação dos custos operacionais.

Segundo a entidade, todos esses fatores criam um ambiente de incerteza para os investimentos no restante do ano.
Mercado de ônibus acompanha a retração
O segmento de ônibus manteve trajetória positiva em junho, embora o desempenho acumulado do ano ainda permaneça abaixo do registrado em 2025. Dessa forma, os emplacamentos somaram 2.191 unidades no mês, alta de 36,7% em relação a maio (1.603 unidades) e crescimento de 11,6% na comparação com junho do ano passado (1.963).
Entretanto, no acumulado do primeiro semestre foram licenciados 10.288 ônibus, volume 11,6% inferior às 11.635 unidades registradas entre janeiro e junho de 2025. Na produção, as montadoras fabricaram 2.356 chassis em junho, retração de 20,8% frente a maio e de 15,1% na comparação anual. Apesar disso, o acumulado do semestre segue positivo, com 16.241 unidades produzidas, avanço de 3,2% sobre as 15.742 do mesmo período do ano passado.
Já as exportações totalizaram 458 unidades em junho, crescimento de 13,9% ante maio, mas queda de 27,2% em relação a junho de 2025. No semestre, os embarques atingiram 2.241 ônibus, retração de 31,3% frente às 3.262 unidades exportadas nos seis primeiros meses do ano anterior.
Produção de caminhões e ônibus também diminui
A retração do mercado interno também afeta a produção nacional de veículos pesados.
A Anfavea projeta que as fábricas brasileiras produzirão 143,2 mil caminhões e ônibus em 2026, volume 6% inferior ao registrado em 2025, quando saíram das linhas de montagem 152,3 mil unidades.
Além da menor demanda doméstica, a indústria enfrenta a desaceleração das exportações para mercados tradicionais da América do Sul.
Exportações também perdem força
No mercado externo, o cenário não é diferente. A entidade revisou a projeção de exportações de veículos pesados para uma queda de 11,1%. Assim, os embarques devem recuar de 33,4 mil unidades, em 2025, para 29,7 mil caminhões e ônibus neste ano.
Segundo Igor Calvet, a redução das compras por parte da Argentina explica boa parte desse resultado, embora outros mercados da região também apresentem ritmo mais lento.

















