A entrada em vigor do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, ainda que de forma provisória, começa a redesenhar o cenário da indústria de caminhões, ônibus e autopeças no Brasil. Embora os efeitos sobre o volume de veículos não sejam imediatos, a cadeia já sente impactos relevantes. Sobretudo na estratégia industrial, no sourcing e na competitividade.
Segundo Gregori Boschi, sócio da BIM³ – Boschi Inteligência de Mercado, o principal ponto neste momento é o fim da incerteza. “O acordo estava travado politicamente e agora deixa de ser uma dúvida do lado brasileiro. Isso, por si só, já gera impactos graduais e alguns imediatos na estratégia industrial e na cadeia de suprimentos”, afirma.
VEJA TAMBÉM:
Move Brasil 2 tem R$ 21,1 bi para compra de caminhões, ônibus e implementos
Transportadores autônomos levaram 204,6 milhões de toneladas, revela CNTA
Fenatran 2026 terá ofensiva chinesa e marca retorno da Sinotruck ao Brasil
Além disso, Boschi destaca que a redução tarifária começa a afetar diretamente as autopeças. “Alguns itens já têm tarifa zerada para exportação. Enquanto outros entram em um cronograma de liberação. Portanto, a cadeia sente primeiro esses efeitos, antes mesmo das montadoras”, explica.
Cadeia de suprimentos sai na frente
De acordo com o especialista, o impacto inicial ocorre nas relações comerciais entre Brasil e Europa, com maior fluidez nas importações e exportações de componentes. Ao mesmo tempo, essa dinâmica tende a reposicionar fornecedores.
“Não é esperado uma invasão de produtos europeus no Brasil, nem o contrário. No entanto, alguns itens mais competitivos podem ganhar espaço e acelerar essas trocas comerciais”, afirma Boschi.
Nesse sentido, ele reforça que a redução de tarifas pode gerar ajustes de preços. “O mercado começa a se autorregular. Com custos menores de importação, há pressão competitiva e, consequentemente, reduções de preços dos dois lados”, diz.
Harmonização técnica deve acelerar inovação

Outro efeito relevante envolve a convergência regulatória. Como a Europa possui padrões mais avançados, a tendência é que o Brasil se aproxime dessas exigências ao longo do tempo.
“Devemos ver uma harmonização técnica, principalmente em segurança, emissões, conectividade e rastreabilidade ambiental. A Europa está mais avançada, então a tendência é o Brasil se adequar a esses padrões”, diz.
Com isso, tecnologias mais sofisticadas devem ganhar espaço no mercado brasileiro. “Hoje, muitos desses sistemas chegam com custo elevado por conta da tarifa. Com a redução, eles se tornam mais acessíveis, o que acelera a modernização da frota”, explica.
Sistemistas ganham competitividade
Para as empresas de autopeças, o acordo abre oportunidades tanto na importação de componentes quanto na exportação de sistemas completos. Isso, por sua vez, amplia a competitividade.
“Um sistemista que importa sensores, por exemplo, pode reduzir custos e melhorar seu preço final. Ao mesmo tempo, ele terá que competir com produtos importados, o que exige eficiência”, diz Boschi.
Portanto, empresas com maior nível tecnológico e atuação internacional tendem a se beneficiar mais rapidamente. Por outro lado, fornecedores dependentes do mercado interno precisarão se adaptar.

“Quem é menos eficiente ou pouco tecnológico pode sofrer. Já empresas com capacidade de competir globalmente devem ganhar espaço”, afirma.
Montadoras reavaliam estratégias
Embora o impacto no volume de caminhões ainda seja limitado no curto prazo, as montadoras já começam a rever suas estratégias industriais. O foco, segundo Boschi, está na eficiência produtiva e na escolha de fornecedores.
“As fabricantes passam a ter mais opções de sourcing. Ou seja, se uma peça europeia se tornar mais competitiva, pode substituir um fornecedor local”, explica.
Além disso, o acordo amplia o mercado potencial. “O Brasil deixa de olhar apenas para um mercado de cerca de 120 mil unidades e passa a considerar um bloco com centenas de milhares de veículos. Isso muda a lógica de produção”, afirma.
Brasil ganha atratividade para investimentos
Outro ponto central envolve a atração de novos investimentos, especialmente de fabricantes de caminhões asiáticos. Com o acordo, produzir no Brasil pode se tornar uma porta de entrada para o mercado europeu.
“Uma montadora que se instala no Brasil passa a acessar a Europa com menos barreiras. Isso aumenta muito a atratividade do País”, diz Boschi.
Segundo ele, esse movimento já começa a aparecer. “Fabricantes asiáticos podem usar o Brasil como base de exportação. Isso reposiciona o País na cadeia global”, afirma.
Efeito de longo prazo pode redesenhar o setor de caminhões e ônibus
Por fim, o consultor acredita que o acordo pode transformar estruturalmente a indústria brasileira. “O Brasil pode se tornar algo semelhante ao que o México representa para os Estados Unidos. Em outras palavras, um polo de produção para exportação”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele ressalta que o processo será gradual e exigirá adaptação de todos os elos da cadeia. “Não é apenas um acordo tarifário. É também um movimento de adaptação tecnológica e regulatória”, diz.
















