Acordo Mercosul-UE pode mudar a dinâmica da indústria de caminhões e ônibus

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A entrada em vigor do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, ainda que de forma provisória, começa a redesenhar o cenário da indústria de caminhões, ônibus e autopeças no Brasil. Embora os efeitos sobre o volume de veículos não sejam imediatos, a cadeia já sente impactos relevantes. Sobretudo na estratégia industrial, no sourcing e na competitividade.

Segundo Gregori Boschi, sócio da BIM³ – Boschi Inteligência de Mercado, o principal ponto neste momento é o fim da incerteza. “O acordo estava travado politicamente e agora deixa de ser uma dúvida do lado brasileiro. Isso, por si só, já gera impactos graduais e alguns imediatos na estratégia industrial e na cadeia de suprimentos”, afirma.

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Além disso, Boschi destaca que a redução tarifária começa a afetar diretamente as autopeças. “Alguns itens já têm tarifa zerada para exportação. Enquanto outros entram em um cronograma de liberação. Portanto, a cadeia sente primeiro esses efeitos, antes mesmo das montadoras”, explica.

Cadeia de suprimentos sai na frente

De acordo com o especialista, o impacto inicial ocorre nas relações comerciais entre Brasil e Europa, com maior fluidez nas importações e exportações de componentes. Ao mesmo tempo, essa dinâmica tende a reposicionar fornecedores.

“Não é esperado uma invasão de produtos europeus no Brasil, nem o contrário. No entanto, alguns itens mais competitivos podem ganhar espaço e acelerar essas trocas comerciais”, afirma Boschi.

Nesse sentido, ele reforça que a redução de tarifas pode gerar ajustes de preços. “O mercado começa a se autorregular. Com custos menores de importação, há pressão competitiva e, consequentemente, reduções de preços dos dois lados”, diz.

Harmonização técnica deve acelerar inovação

Acordo Mercosul–UE deve gerar efeitos na cadeia de autopeças e deve acelerar competitividade, inovação e novos investimentos na indústria de caminhões no Brasil

Outro efeito relevante envolve a convergência regulatória. Como a Europa possui padrões mais avançados, a tendência é que o Brasil se aproxime dessas exigências ao longo do tempo.

“Devemos ver uma harmonização técnica, principalmente em segurança, emissões, conectividade e rastreabilidade ambiental. A Europa está mais avançada, então a tendência é o Brasil se adequar a esses padrões”, diz.

Com isso, tecnologias mais sofisticadas devem ganhar espaço no mercado brasileiro. “Hoje, muitos desses sistemas chegam com custo elevado por conta da tarifa. Com a redução, eles se tornam mais acessíveis, o que acelera a modernização da frota”, explica.

Sistemistas ganham competitividade

Para as empresas de autopeças, o acordo abre oportunidades tanto na importação de componentes quanto na exportação de sistemas completos. Isso, por sua vez, amplia a competitividade.

“Um sistemista que importa sensores, por exemplo, pode reduzir custos e melhorar seu preço final. Ao mesmo tempo, ele terá que competir com produtos importados, o que exige eficiência”, diz Boschi.

Portanto, empresas com maior nível tecnológico e atuação internacional tendem a se beneficiar mais rapidamente. Por outro lado, fornecedores dependentes do mercado interno precisarão se adaptar.

Gregori Boschi, da BIM³ diz que o acordo Mercosul–UE deve impactar primeiro a cadeia de autopeças e acelerar a competitividade da indústria de caminhões e ônibus no Brasil

“Quem é menos eficiente ou pouco tecnológico pode sofrer. Já empresas com capacidade de competir globalmente devem ganhar espaço”, afirma.

Montadoras reavaliam estratégias

Embora o impacto no volume de caminhões ainda seja limitado no curto prazo, as montadoras já começam a rever suas estratégias industriais. O foco, segundo Boschi, está na eficiência produtiva e na escolha de fornecedores.

“As fabricantes passam a ter mais opções de sourcing. Ou seja, se uma peça europeia se tornar mais competitiva, pode substituir um fornecedor local”, explica.

Além disso, o acordo amplia o mercado potencial. “O Brasil deixa de olhar apenas para um mercado de cerca de 120 mil unidades e passa a considerar um bloco com centenas de milhares de veículos. Isso muda a lógica de produção”, afirma.

Brasil ganha atratividade para investimentos

Outro ponto central envolve a atração de novos investimentos, especialmente de fabricantes de caminhões asiáticos. Com o acordo, produzir no Brasil pode se tornar uma porta de entrada para o mercado europeu.

“Uma montadora que se instala no Brasil passa a acessar a Europa com menos barreiras. Isso aumenta muito a atratividade do País”, diz Boschi.

Segundo ele, esse movimento já começa a aparecer. “Fabricantes asiáticos podem usar o Brasil como base de exportação. Isso reposiciona o País na cadeia global”, afirma.

Efeito de longo prazo pode redesenhar o setor de caminhões e ônibus

Por fim, o consultor acredita que o acordo pode transformar estruturalmente a indústria brasileira. “O Brasil pode se tornar algo semelhante ao que o México representa para os Estados Unidos. Em outras palavras, um polo de produção para exportação”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele ressalta que o processo será gradual e exigirá adaptação de todos os elos da cadeia. “Não é apenas um acordo tarifário. É também um movimento de adaptação tecnológica e regulatória”, diz.