
No mês passado, durante a disputa da sétima etapa da temporada 2014, na cidade de Córdoba, na Argentina, a Fórmula Truck completou 200 corridas. Um marco para o automobilismo brasileiro, considerando que é uma das categorias mais bem-sucedidas e, principalmente, que mais atrai público para as suas arquibancadas.
Este sucesso de público não acontece por acaso. Diferentemente de outras categorias – que se valem de torcidas uniformizadas compostas de convidados de empresas patrocinadoras – nas etapas da F-Truck os torcedores vão porque se identificam com os pilotos – alguns deles eram caminhoneiros –, com as marcas e, mais ainda, com os caminhões.
A explicação para isso é simples: é porque os caminhões que correm na F-Truck são, pelo regulamento, iguais aos que são vendidos nas concessionárias das fabricantes. Quando criou a categoria, no longínquo ano de 1996, o saudoso Aurélio Baptista Félix já pensou nisso, e sempre insistiu que fosse assim. Algumas equipes chegaram a propor apêndices aerodinâmicos, asas e outros acessórios que poderiam melhorar o desempenho dos caminhões na pista. Mas Félix batia o pé, insistindo para que as características visuais dos pesados fossem mantidas. E assim o é, até hoje.
Um dos pioneiros daquela F-Truck de 1996 é o piloto e chefe da equipe MAN Latin America Renato Martins. Ele chegou, inclusive, a participar da primeira prova, que foi apenas de demonstração, sem valer pontos ou como campeonato, e que terminou com um acidente forte. Por conta deste acontecimento inesperado, Félix teve dificuldades para homologar a categoria, pois, em princípio, ela pareceu muito perigosa.
Mas Renato estava lá, com este caminhão da foto 1. Naquela época, ele ainda trabalhava como frotista, nas estradas brasileiras. “Como muitos sabem, eu era caminhoneiro e comecei a pilotar pela paixão pela velocidade”, revela o piloto.
Seu primeiro caminhão era muito mais próximo de um de estrada. Toda a técnica para transformar modelos de estrada, recém-saídos de fábrica, para trucks de corrida foi evoluindo através dos anos. “Eu jamais imaginaria tanta evolução em poucos anos. Os caminhões de 1996 eram muito próximos dos originais de fábrica, com algumas poucas modificações que a gente mesmo fazia na oficina”, conta Martins, complementando que a categoria levou ainda seis anos para atingir um patamar respeitável de profissionalização: foi quando as equipes passaram a receber suporte oficial de fábrica, com a presença de técnicos e engenheiros das próprias marcas indo para a pista.
“A partir de 2002, quando comecei a competir por uma equipe de fábrica (a Volkswagen), os caminhões começaram a ter um desenvolvimento muito maior, justamente por conta desse intercâmbio”, lembra Martins. De fato, a F-Truck passou a ser vista pelos fabricantes como um laboratório de estudos tecnológicos, além de uma excelente plataforma de marketing e promoção.
Nesses 12 anos, muita coisa mudou – para melhor! O caminhão Volkswagen com que Martins disputou o campeonato daquele ano, por exemplo, pesava 4,9 toneladas e tinha uma potência de 700 cv. O atual, que é da MAN, parceira da equipe, pesa 400 kg a menos, mas tem 500 cv a mais, totalizando cerca de 1 200 cv. Ou seja, mais leve, mais potente, mais rápido e tudo isso sem ter a necessidade de mudar suas características estéticas, como bem queria Aurélio Félix.
Martins traz boas recordações desse período todo, dessas duas centenas de corridas.
“Em 1996, fui o primeiro campeão da Truck, e em 2006, conquistei meu último título, e nestes dez anos a Truck deu um salto evolutivo enorme. Hoje temos caminhões com mais de mil cavalos de potência e com peso menor do que o que a gente usava há dez anos”, relembra.
Martins conclui ainda com boas expectativas para o futuro, afinal não foram apenas os caminhões que evoluíram ao longo dos anos, mas também o nível técnico dos pilotos. “Hoje, a F-Truck atrai pilotos que fizeram carreira em outras categorias de ponta, inclusive internacional, da Indy, como no caso do Felipe Giaffone”. Como se vê, a F-Truck só tem evoluído e pode ter ainda mais 200, 400, 600 provas.
















