Entrevistamos a cantora Sula Miranda

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Sula Miranda lança candidatura para Deputada Federal

Sula Miranda lança candidatura para Deputada Federal

Suely Brito de Miranda, a Sula Miranda, é a devotada cantora da causa dos caminhoneiros desde 1986, quando iniciou carreira no universo do sertanejo urbano. São 28 anos de vivência cantando para os profissionais da estrada, e por sua dedicação logo ganhou o título de “rainha dos caminhoneiros”. Cantora, apresentadora, locutora de rádio, agora a artista se prepara para dividir ainda mais seu tempo e abraçar mais uma missão, como parlamentar.

Afiliada ao PRB (Partido Republicano Brasileiro), há três ela assumiu a coordenadoria de transportes do partido, e agora se lança à vida pública, como pré-candidata a deputada federal. Com a qualidade de uma pessoa que gosta de ouvir a todos, Sula tem estudado e se aprofundado na complexidade da logística de transportes nacional. Sua bandeira de luta é incentivar a aprovação das obras de infraestrutura em todos os modais, mas pretende dar especial incentivo à criação dos Pacam’s (Ponto de Apoio ao Caminhoneiro), em todo o Brasil. Com a palavra, a eleita dos caminhoneiros:

Transporte Mundial – Como você se tornou a “rainha dos caminhoneiros”? 
Sula – Gravei no primeiro disco uma música que falava sobre eles. Foi sucesso imediato, e a mídia começou a falar que eu era a “rainha dos caminhoneiros”. A partir de então, o público absorveu. Hoje entendo que é uma benção na minha vida, o reconhecimento do meu trabalho. 

TM – Você tem amizade com alguns deles? 
Sula – Sou uma pessoa simples, ainda que tenha o título de “rainha dos caminhoneiros”. Lido com eles no dia a dia da estrada e sou a parceira que vive e conhece as dificuldades e os anseios desses profissionais. 

TM – Nessa época você já tinha noção da realidade vivida pelos profissionais da estrada?
Sula – Foi muito rápido. Quando recebi o título tinha só alguns meses de ‘carreira solo’. Vivenciei tudo ao longo dos anos e compartilhei sentimentos, como as saudades de casa e as dificuldades da estrada.

TM – O que você considera os maiores desafios para essa classe profissional?
Sula – Entendo que a péssima infraestrutura nas estradas torna o trabalho do caminhoneiro complicado. O motorista fica quase 20 dias na estrada, e grande parte desse tempo sequer consegue tomar um simples banho. O desafio de enfrentar as condições sub-humanas nas estradas me deixa preocupada e sensibilizada.

TM – Os motoristas têm verdadeira paixão pelos seus caminhões. Você já dirigiu caminhão? O que achou?
Sula – A paixão está em todo ser humano, basta despertá-la, e isso é facilmente percebido num caminhoneiro que ama seu caminhão. É possível ver isso quando o caminhão está bem cuidado. Sim, sou habilitada e dirijo um caminhão sempre que tenho uma oportunidade. Ao longo da minha carreira senti a evolução do caminhão. A cada ano a tecnologia está mais presente. Hoje, devido aos novos equipamentos, dirigir um caminhão é fácil quando comparado com os veículos do passado. Vejo-os como uma ferramenta de desenvolvimento do nosso país. 

TM – Você acompanha a evolução e os lançamentos de caminhões?
Sula – A evolução da tecnologia nos caminhões é perceptível em todos os sentidos. Cada fabricante tem sua peculiaridade e cada um mostra de alguma forma uma ponta de tecnologia. Vejo isso com muito bons olhos, pois é bom para o caminhoneiro. Entendo que a evolução das tecnologias aplicadas nos novos caminhões criou certa distância entre os caminhoneiros mais antigos. Precisamos atuar mais firmemente no sentido de criar mais opções de qualificação profissional para tirar proveito de tanta tecnologia.

TM – De quem partiu a iniciativa de seu ingresso na política?
Sula – Fui convidada pelo presidente nacional do PRB, Marcos Pereira. Havia me filiado com a intenção de conhecer a política e acabei gostando. Entrei no partido pelo PRB Mulher e a partir daí, pensei em atuar na área em que estou familiarizada. No entanto, me coloquei também à disposição para fazer campanhas para os caminhoneiros, e quando veio o convite para assumir o PRB Transporte. Um enorme desafio, mas muito estimulador, por isso, não resisti.

TM – Com o que você se identifica no PRB?
Sula – O PRB é um partido jovem e com muita personalidade. É formado por pessoas comprometidas com a atuação na gestão transparente e coerente, de acordo com meus princípios. Por isso, acredito que dentro do PRB poderei fazer algo de concreto para o setor que pretendo representar junto ao poder legislativo.

TM – Quando você passou a atuar como coordenadora dos transportes na legenda e se deparou com a complexidade do tema, qual foi sua reação?
Sula – Já rodei muito pelas estradas do Brasil. Observei e vivi experiências das mais variadas e sofri na pele as limitações do interior do país. Mas ao assumir a pasta, procurei me cercar de pessoas que fossem melhores do que eu nas suas áreas. Assim, hoje posso dizer que temos uma equipe formada por pessoas atuantes em todos os modais, com muita experiência e visão detalhada dos problemas do nosso país. Não tenho a pretensão de querer ser a expert de todos os assuntos, mas, de querer reunir todas as necessidades e lutar por cada uma delas no sentido de mudar o cenário de um país, que por muitos anos viveu sem planejamento de longo prazo. E o resultado disso foi um investimento equivocado há 50 anos em estradas, incentivadas pela indústria automobilística, perdendo a chance de investir em uma malha ferroviária e fluvial em tempo. Hoje vivemos perto do apagão logístico, os portos com pouca capacidade de receber nossa produção, enfim, quero a visão de longo prazo pelas próximas gerações.

TM -Você está estudando as particularidades dos modais?
Sula – Sim, como já disse cada modal deve ser visto de forma a se integrar um ao outro, com o objetivo de poder diminuir o custo Brasil. Hoje o foco ainda é o transporte rodoviário, mas se criarmos um plano de ação que vise a integração entre os modais, acredito que podemos reduzir sensivelmente os custos dos produtos finais, além de gerar benefícios importantes ao meio ambiente. Temos uma divisão por modais da ordem de 4% para o dutoviário, 11% de aquaviário, 22% de ferroviário e 63% para o rodoviário. Fica clara a necessidade de dar foco a programas que incentivem os investimentos no setor ferroviário. Em 2012 o governo lançou um projeto para melhorar a malha ferroviária, porém sem sucesso ainda. A iniciativa privada propõe linhas diferentes das planejadas e, nesse impasse, o Brasil continua mais caro. Temos pouco mais de 28 000 km de ferrovias, contra 225 000 km dos USA e 87 000 km da Rússia, apesar de o nosso tamanho ser parecido em extensão territorial, ainda somos muitos pequenos em malha ferroviária. Temos muito a fazer pelo setor.

TM – Os problemas nos transportes são mais desafiadores no restante do país do que em São Paulo, onde se encontram as melhores estradas. 
Sula – Ao longo dos anos pude perceber que os gargalos nas estradas aumentaram, assim como o desafio para o caminhoneiro. Ninguém fez, digo com absoluta certeza, nada em favor dessa classe. Por causa desses problemas não resolvidos, entendo que não posso ter uma visão exclusiva de São Paulo. Ao atuar no plano federal posso propor soluções para todos os Estados. As melhores estradas e ferrovias estão concentradas na região Sudeste, reflexo da capacidade de investimento de cada Estado, mas acredito que é possível melhorar em todo o país.

TM – Você já tem uma bandeira de luta? Qual é a sua plataforma política?
Sula – Minha ‘bandeira de luta’ é melhorar as condições de trabalho do transportador. Seja ele autônomo ou o motorista que trabalha em empresas transportadoras. A maior preocupação será atuar no crescimento e melhoria dos modais que permitam ao Brasil tornar-se mais competitivo. A cadeia logística nacional é carente de um planejamento integrado. Percebo que há muitas ideias excelentes, porém, ficam isoladas por interesses de determinados setores, que acabam não se integrando. Quero ser uma política atuante e aglutinadora dessas soluções.

TM – Você já tem noção sobre os gargalos de escoamento da produção e as dificuldades no acesso aos portos? Em Santos, por exemplo, os motoristas de caminhões ficam presos a filas quilométricas por dias na época das safras. 
Sula – Sim, vejo os problemas. Na verdade, apesar de os portos estarem subdimensionados para os números de produção recordes de grãos, entre outros produtos, é preciso ter um olhar mais crítico e cuidadoso ao tentar colocar o problema somente nos portos. A região do Mato Grosso tem deficiência de silos que possam ser utilizados no armazenamento antes do escoamento da produção. O fazendeiro coloca toda sua produção em cima dos caminhões e dispara de forma aleatória para os portos, causando o problema das filas, que geram um alto custo com os caminhões parados. Entendo que é preciso dar atenção ao começo da cadeia produtiva. Silos adequados à produção de cada região é uma questão que pode solucionar parte do problema. Ao gerar condição para organizar a saída ordenada dos caminhões, por exemplo, é possível praticar o agendamento de carga e descarga nos portos e evitar filas. São ideias e atitudes simples de serem resolvidas. Basta vontade política. Se eleita, pretendo ficar ainda mais próxima do cidadão. Escutar as necessidades e propor soluções e desta forma crescer para atingir, repito, toda a cadeia. São soluções para todos os municípios.
 
TM – Você tem conhecimento sobre o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) nos transportes?
Sula – Sim. E tenho acompanhado com mais ênfase os desdobramentos dessa iniciativa. É sabido que o Brasil tem diversas frentes de desenvolvimento, obras de infraestrutura nas estradas, como duplicações, investimento para construção e reconstrução das ferrovias e aumento e agilidade dos portos. Mas tudo com certa lentidão, e é preciso acelerar. Sei que a má vontade política e a burocracia não deixam o país viver o que propõe o PAC. Como podemos acelerar o crescimento, se o tempo todo o sistema freia as iniciativas tanto do próprio governo como da iniciativa privada, somos muito burocráticos, precisamos destravar nosso Brasil.

TM – Como você vai conciliar sua vida de locutora, apresentadora, cantora, parlamentar e de mãe de família?
Sula – Como sempre conduzi tudo. Com muita disciplina, determinação, foco e vontade de fazer diferente. A família é a base, ser mãe é o que me inspira a construir um país melhor para as futuras gerações.

TM – Você foi recebida recentemente pelo secretário Jorge Messias, do Seres/MEC (Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior). Como foi esse encontro?
Sula – Esse encontro foi muito bom, uma oportunidade para apresentar a nossa proposta de lutar pela criação de uma Faculdade Pública dos Transportes em nosso país. Essa instituição ofereceria cursos superiores (e também técnicos) na área de transportes, considerando os crescentes e graves problemas de mobilidade. Além disso, poderíamos incentivar, ainda, a oferta de educação média e superior à distância (os Eads) para os caminhoneiros, criando Polos de Apoio Presencial ao longo das rodovias. Esses polos seriam adequadamente equipados para atender às exigências da legislação nessa área. Acredito também que a responsabilidade social de criação dessa instituição de ensino é uma forma de devolver à sociedade cidadãos mais preparados com respeito à educação no trânsito. Outro propósito é trabalhar para a criação de lei que obrigue a inclusão na grade curricular, de todos os cursos da educação infantil, básica, técnica e superior, a educação no trânsito, nos moldes do que está sendo feito com a educação ambiental. Essa lei obrigaria ainda a inclusão dessa matéria nos cursos de licenciaturas que formam os professores da educação básica destinados às crianças e jovens. Uma Escola de Motorista, conveniada ao Detran,  também poderia cumprir o papel de fazer a reciclagem de habilitação de motoristas profissionais.

TM – Muitos caminhoneiros têm dificuldade para comprar um caminhão novo, fazendo a frota do Brasil ter uma idade média bastante alta. Qual sua ideia para a renovação da frota?
Sula Miranda – Tenho estudado esta questão também. O fato é que, embora os caminhões representem apenas 7% da frota de veículos em circulação pelo país, os caminhões mais velhos estão envolvidos em 25% dos acidentes graves. Além de menos seguros, os veículos com longo período de utilização quebram mais frequentemente, prejudicando o trânsito, consumindo mais combustível e poluindo mais do que um caminhão novo. Isso justifica a instituição de políticas públicas que estimulem a renovação de frota de caminhões, de modo a reduzir gradualmente sua idade média até níveis comparáveis com os de países mais desenvolvidos e, assim, aumentar a eficiência e a segurança do sistema de transporte de cargas. Sei que há várias entidades vinculadas à questão que estão em busca de um mecanismo junto ao governo federal para a renovação de frota, e vamos atua

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Marcos Villela
Jornalista técnico e repórter especial no site e na revista Transporte Mundial. Além de caminhões, é apaixonado por motocicletas e economia! Foi coordenador de comunicação na TV Globo, assessor de imprensa na então Fiat Automóveis, hoje FCA, e editor-adjunto do Caderno de Veículos do Jornal Hoje Em Dia e O Debate, ambos de Belo Horizonte (MG).