A Mercedes-Benz Trucks aproveita a IAA Transportation 2026, em Hannover, para mostrar que o futuro do transporte de cargas não passa por uma única tecnologia. A fabricante apresenta caminhões elétricos e a hidrogênio, uma nova geração de trem de força diesel, sistemas avançados de segurança e soluções para condução autônoma.

Por trás dos lançamentos existe uma abordagem que integra a redução das emissões com elementos que o transportador mais valoriza: maior produtividade, tempo de disponibilidade dos veículos superior e redução do custo de operação.
“Nosso trabalho é oferecer aos clientes as soluções certas para alcançar isso”, afirmou Achim Puchert, CEO da Mercedes-Benz Trucks, durante round table com jornalistas brasileiros do setor de transporte na IAA.
Para Puchert, a tecnologia precisa sair do campo das demonstrações e provar seu valor na operação diária. Essa visão ajuda a explicar a diversidade de soluções apresentadas pela Mercedes-Benz Trucks em Hannover.
Mercedes-Benz Trucks amplia as opções de caminhões elétricos
Uma das principais novidades da Mercedes-Benz Trucks é o eActros Lowliner, desenvolvido para operações de transporte de alto volume. O caminhão reúne a tecnologia elétrica do eActros 600 com uma configuração de chassi rebaixado.
O modelo será oferecido inicialmente como cavalo mecânico 4×2, com entre-eixos de 4.000 mm e cabine de 2,50 metros de largura. A configuração permite utilizar semirreboques do tipo mega, com altura interna de até três metros, sem ultrapassar os limites legais de altura do conjunto.

O eActros Lowliner utiliza baterias LFP de 207 kWh cada e pode receber dois ou três conjuntos. Na configuração de maior capacidade, chega a 621 kWh. A autonomia pode alcançar cerca de 500 quilômetros, dependendo da configuração e das condições de operação.
A produção em série está prevista para começar no segundo trimestre de 2027, na fábrica de Wörth, na Alemanha. As encomendas para os mercados europeus e outros mercados internacionais começaram neste mês de setembro na IAA.
A Mercedes-Benz também reforça a experiência com o eActros 600. Desde o lançamento comercial, no fim de 2024, o modelo já acumulou mais de 160 milhões de quilômetros em operações com clientes, segundo a fabricante.
Hidrogênio entra em operação real
Outra frente da estratégia é o NextGenH2 Truck, que utiliza hidrogênio líquido em uma célula de combustível. A Mercedes-Benz Trucks pretende iniciar, no fim de 2026, uma pequena série de aproximadamente 100 unidades em operações reais na Alemanha.
A Dachser – gigante alemã global de serviços de logística e transporte de mercadorias – será o primeiro cliente. Inicialmente, um caminhão será utilizado em operações diárias e outros dois deverão entrar em operação até meados de 2027.

O modelo foi desenvolvido para aplicações nas quais autonomia e flexibilidade são fundamentais. A fabricante informa autonomia superior a 1.000 quilômetros e vê o hidrogênio como complemento aos caminhões elétricos a bateria, principalmente em operações de longa distância.
Mercedes-Benz Trucks mantém o diesel eficiente no portfólio
Apesar dos investimentos em eletrificação e hidrogênio, Puchert deixa claro que o motor a combustão ainda terá papel importante. A Mercedes-Benz Trucks apresenta na IAA o Powerliner, nova geração de trem de força para o transporte pesado de longa distância. O sistema integra motor, transmissão e eixo e busca combinar maior eficiência com aumento de potência e torque.

Os novos motores OM 470 e OM 471 fazem parte de uma plataforma global de motores pesados da Daimler Truck. A produção ocorre na fábrica de Mannheim, na Alemanha.
A estratégia faz sentido diante do ritmo atual de adoção dos caminhões elétricos na Europa. Segundo dados apresentados pela Daimler Truck, a participação dos caminhões pesados elétricos a bateria no mercado europeu foi de apenas 2% em 2025. Ao mesmo tempo, as metas europeias para 2030 exigiriam uma participação muito maior de veículos de emissão zero. Para Puchert, entretanto, o problema não está mais apenas no desenvolvimento do caminhão.
“O caminhão está resolvido”
Durante a conversa com jornalistas brasileiros, o executivo foi direto ao tratar da eletrificação. A indústria, lembrou ele, já tem veículos capazes de realizar muitas operações de transporte sem emissões locais. O desafio agora está na infraestrutura, na disponibilidade de energia e no custo dessa energia.
A Mercedes-Benz defende uma abordagem integrada. Fabricantes de caminhões, empresas de energia, operadores de infraestrutura e governos precisam avançar juntos. Essa questão é particularmente importante na Europa, onde a implantação dos pontos de recarga para veículos pesados ainda não acompanha as metas de redução de emissões.
Puchert também chama a atenção para uma diferença importante entre aplicações. No transporte urbano, é possível planejar os horários e locais de recarga de uma frota. No transporte de longa distância, a situação é mais complexa porque o caminhão precisa encontrar infraestrutura adequada ao longo da rota.
Segurança ganha novas funções
A Mercedes-Benz Trucks também amplia os sistemas de assistência ao motorista. Entre as novidades está o Active Cross Traffic Assist, que ajuda o motorista em situações nas quais existe risco de colisão com veículos ou motocicletas que cruzam a trajetória do caminhão.
Outro destaque é o Active Sideguard Assist 3, que amplia a proteção nas manobras de conversão e passa a oferecer assistência nos dois lados do veículo, inclusive com intervenção de frenagem em determinadas situações. A fabricante também apresenta uma evolução do Active Drive Assist 3, sistema de condução parcialmente automatizada.
Para Puchert, segurança é uma das áreas em que a Mercedes-Benz Trucks pretende continuar levando rapidamente para outros mercados as tecnologias desenvolvidas globalmente.
E o Brasil?
A questão ganha relevância para o mercado brasileiro. Segundo o executivo, a Mercedes-Benz está cada vez mais alinhada entre Brasil e Europa. O exemplo mais evidente é o Actros, cuja tecnologia do motor OM 471 já está presente no mercado brasileiro. Lembrou que a fabricante também lançou o Axor para ampliar sua oferta no segmento de extrapesados.
No primeiro semestre de 2026, segundo dados apresentados pela empresa durante a IAA, a companhia manteve forte posição no mercado europeu de caminhões médios e pesados de emissão local zero, com aproximadamente 38% de participação.
Em relação à eletrificação no Brasil, Puchert confirmou que a empresa já realiza testes com caminhões elétricos para entender quais operações apresentam condições adequadas para a tecnologia. Porém, o executivo não antecipa uma data para o início das vendas em escala.
A lógica é diferente daquela adotada por alguns concorrentes que já colocaram caminhões elétricos à venda. Para a Mercedes-Benz, não basta disponibilizar o veículo. É necessário oferecer uma solução completa, que envolva treinamento da rede, manutenção, peças, recarga e suporte à operação.
Concorrência chinesa estimula a inovação
A chegada de novas marcas chinesas também esteve entre os assuntos da conversa. Para Puchert, a concorrência faz parte da evolução do setor e deve ser encarada como estímulo à inovação. O executivo reconhece que os fabricantes chineses ganharam velocidade e que seus produtos passaram a apresentar não apenas preços competitivos, mas também maior conteúdo tecnológico.
A resposta da Mercedes-Benz, segundo ele, é acompanhar de perto essas mudanças e aprender com os novos concorrentes. “Não devemos ter medo da concorrência. Precisamos observar o que eles estão fazendo e aprender”, afirmou.
A condução autônoma aparece como uma das alternativas em desenvolvimento. A Mercedes-Benz Trucks trabalha com a Torc, empresa do grupo Daimler Truck, no desenvolvimento de caminhões autônomos para operações de longa distância.
O foco inicial está nos Estados Unidos, onde os primeiros testes sem motorista em vias públicas estão previstos para este ano e as aplicações comerciais podem começar em 2027.
Puchert, entretanto, ressalta que a tecnologia não resolve sozinha a falta de profissionais. A indústria também precisa tornar a profissão de motorista mais atraente e melhorar as condições de trabalho.
Portfólio para diferentes realidades
A mensagem que a Mercedes-Benz Trucks leva da IAA Transportation 2026 é de diversidade tecnológica. O eActros Lowliner atende ao transporte elétrico de alto volume. O NextGenH2 aponta para aplicações de longa distância nas quais autonomia e flexibilidade são fundamentais. O motor Powerliner mostra que o diesel ainda terá espaço enquanto a infraestrutura para emissão zero não acompanhar as necessidades do mercado.
Em paralelo, sistemas de segurança, conectividade e condução automatizada avançam independentemente do tipo de propulsão. Para o CEO da Mercedes-Benz Trucks, o problema está justamente em combinar essas tecnologias com as necessidades de cada transportador.
E, no caso brasileiro, o objetivo é acompanhar o desenvolvimento global sem simplesmente importar soluções. A fabricante quer avaliar quais tecnologias fazem sentido para as condições de operação do País.
A mensagem da Mercedes-Benz Trucks na IAA não é de substituição imediata de uma tecnologia por outra. É de transição, com diferentes caminhos convivendo enquanto infraestrutura, custos e características de cada operação deverão ir definindo o ritmo da mudança.

















