Brasil tem tecnologia para produzir baterias, mas falta escala

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A indústria brasileira de baterias para veículos comerciais opera com o mesmo nível tecnológico dos principais polos automotivos do mundo. O grande gargalo para o avanço da eletrificação no País não está na inovação, mas sim no volume de produção e na consolidação da cadeia de fornecedores.

Fábrica de baterias da BorgWarner, em Piracicaba
Fábrica de baterias da BorgWarner, em Piracicaba/SP

Não estamos defasados

Na avaliação do Diretor Geral da BorgWarner, Marcelo Resende, não estamos defasados em tecnologia em relação a mercados como o chinês ou o europeu. Segundo o executivo, dominamos as soluções mais avançadas, de modo que a diferença real hoje está no volume de produção e no desenvolvimento da cadeia de fornecedores. “Estamos no início da curva”, diz.

A BorgWarner produz no Brasil packs de baterias e trabalha atualmente com a tecnologia NMC (Níquel, Manganês e Cobalto). Ao mesmo tempo, a empresa desenvolve uma nova geração com química LFP (Lítio-Fosfato de Ferro), que deverá ampliar a participação da empresa nesse mercado.

A estratégia também acompanha o movimento do governo brasileiro para aumentar o conteúdo nacional. Enquanto a Europa vem adotando medidas para proteger e estimular a produção local diante da entrada de veículos asiáticos, o Brasil tem seguido uma linha baseada principalmente em incentivos.

Um exemplo são as linhas de financiamento oferecidas por programas como o Finame, do BNDES, e o Fundo Clima. Para ter acesso a essas linhas, fabricantes precisam atender a determinados requisitos de conteúdo nacional. Isso cria uma relação direta entre a produção local de componentes e o custo final dos veículos elétricos.

Outra medida em discussão é o Processo Produtivo Básico (PPB) específico para baterias. O Ministério de Minas e Energia colocou o tema em consulta pública, enquanto o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços participa das discussões relacionadas à regulamentação e aos incentivos.

A proposta estabelece uma pontuação de acordo com o nível de produção realizado no País. Quanto maior a participação de componentes e processos nacionais, maior a pontuação e, consequentemente, a possibilidade de enquadramento nos incentivos previstos.

Para a indústria de veículos comerciais, a medida pode ajudar a reduzir o preço das baterias e, por consequência, o custo de aquisição dos caminhões e ônibus elétricos.

 Mais produção, menor custo

O aumento do volume de produção é considerado fundamental para que o Brasil avance na cadeia de baterias. Atualmente, a BorgWarner fabrica os packs no País, mas ainda importa as células. A empresa pretende aumentar gradualmente o conteúdo nacional. No caso da bateria Fosfato de Ferro Lítio (LFP), a intenção é produzir praticamente todo o conjunto no Brasil, mantendo a importação apenas das células.

O próximo passo seria avançar para a fabricação de células no País. A BorgWarner não pretende necessariamente produzir esse componente, mas trabalha com a possibilidade de contar com parceiros instalados no Brasil.

Essa etapa também permitiria aproveitar melhor a disponibilidade de minerais no Brasil e em outros países da América Latina. A produção local das células poderia completar uma cadeia que hoje ainda não está estruturada no País.

Além do ganho industrial, a matriz energética brasileira é também um outro aspecto considerado importante. Com grande participação de fontes renováveis, uma cadeia nacional de baterias poderia apresentar uma pegada de carbono menor em comparação com produtos fabricados em regiões onde a geração de energia depende mais de combustíveis fósseis.

 Eletrificação começa a fechar a conta

O crescimento da produção também depende da expansão do mercado de veículos elétricos. Para Marcelo Resende, essa relação já começa a aparecer em algumas aplicações de veículos comerciais.

O preço de compra de um caminhão ou ônibus elétrico ainda é superior ao de um modelo convencional. Por outro lado, o custo de operação pode ser significativamente menor. Quando essa diferença é analisada ao longo da vida útil do veículo, algumas aplicações já começam a apresentar uma relação favorável.

A redução gradual do preço das baterias tende a ampliar esse movimento. Com maior escala de produção e evolução tecnológica, a expectativa é de que mais aplicações de veículos comerciais elétricos passem a apresentar condições econômicas para o transportador.

 Chinesas podem acelerar demanda de baterias

A chegada de fabricantes chineses de caminhões e ônibus elétricos ao Brasil também pode acelerar a demanda por baterias produzidas localmente. Atualmente, algumas empresas ainda trazem os veículos completos, incluindo as baterias. Mas, à medida que essas operações avancem para sistemas CKD ou SKD e aumentem o conteúdo nacional, a produção local de baterias tende a ganhar espaço.

MArcelo Resende
A nacionalização será um caminho natural para as empresas que pretendem produzir veículos elétricos no Brasil, diz Marcelo Tesende

“Não é viável, no longo prazo, para quem vai montar um caminhão ou um ônibus elétrico trazer a bateria do outro lado do mundo”, afirma Marcelo. Para a BorgWarner, esse movimento representa uma oportunidade de ampliar a carteira de clientes. A empresa já fornece baterias NMC para o chassi elétrico da Mercedes-Benz  EO500U e mantém negociações com outras empresas interessadas em soluções para veículos elétricos.

O executivo considera que a nacionalização será um caminho natural para os fabricantes que pretendem produzir veículos elétricos no Brasil. Quanto maior a produção local, maior também a necessidade de fornecedores instalados no País.

A BorgWarner já enfrenta concorrentes internacionais e nacionais nesse mercado. Por isso, a empresa aposta na evolução tecnológica, na qualidade e na competitividade para ampliar sua participação à medida que o mercado brasileiro de veículos comerciais elétricos crescer.

O Brasil não possui, hoje, uma cadeia completa de produção de baterias, mas já conta com tecnologia, fabricantes e uma base industrial capaz de avançar para novas etapas. Para a indústria, o tamanho que esse mercado poderá alcançar nos próximos anos será determinante para definir a velocidade dessa transformação.