O mercado brasileiro de ônibus entrou em 2026 em ritmo mais lento e obrigou as fabricantes a rever estratégia. Depois de um desempenho histórico em 2025, quando a Mercedes-Benz alcançou 55% de participação, desconsiderando o programa Caminho da Escola, o setor registrou queda de 20% nos emplacamentos no primeiro trimestre. Ao mesmo tempo, juros elevados, cenário geopolítico instável e dificuldades de financiamento passaram a pressionar operadores e travar decisões de investimento.
Diante desse ambiente, a discussão deixou de ser apenas tecnológica e passou a envolver viabilidade econômica e infraestrutura. Nesse contexto, a renovação de frota corre risco de desaceleração justamente no momento em que cidades ampliam metas de descarbonização.
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Infraestrutura limita avanço dos elétricos
Embora a eletrificação avance, especialmente em São Paulo, o crescimento já encontra um limite claro. A atual rede de média tensão suporta cerca de 2.700 ônibus elétricos. Hoje, a capital já opera aproximadamente 1.200 unidades, o que reduz a margem de expansão para cerca de 1.500 veículos sem mudanças estruturais.
No entanto, a ampliação da capacidade energética exige investimentos elevados e tempo de execução. A migração para alta tensão, segundo projeções do setor, deve ocorrer apenas entre 2030 e 2035. Enquanto isso, surge um impasse. Ou seja, a restrição à compra de modelos a diesel avança mais rápido do que a infraestrutura elétrica necessária para sustentar a transição.
Como resultado, o sistema corre o risco de estagnação no curto prazo. E com operadores sem alternativas viáveis para renovar a frota.

Biocombustível ganha força como solução imediata
Diante desse cenário, Walter Barbosa, vice-presidente de vendas e marketing ônibus da Mercedes-Benz explica que há uma estratégia de solução intermediária. Em vez de priorizar motores a gás, a montadora aposta no BeVant, um biocombustível produzido no Brasil, equivalente ao HVO que pode reduzir as emissões de CO₂ em até 99% no conceito “poço à roda”.
“A proposta se diferencia por não exigir mudanças estruturais relevantes”, explica Barbosa. O combustível funciona com a base atual de motores e elimina a necessidade de novos investimentos em infraestrutura, como gasodutos nas garagens. Assim, operadores conseguem renovar a frota com menor impacto financeiro e operacional.
Além disso, o modelo resolve um problema imediato. Em outras palavras, parte significativa da frota urbana ainda roda com veículos antigos, alguns em operação desde 2012, devido à falta de alternativas viáveis de substituição. Assim, esses veículos mais antigos podem rodar com esse tipo de combustível, reduzindo emissão.
Juros altos e cenário externo pressionam o setor
Seja como for, fatores macroeconômicos ampliam os desafios. A alta da taxa Selic, atualmente em 14,75%, encarece o crédito e reduz a capacidade de investimento das empresas. Paralelamente, tensões internacionais elevaram os custos logísticos dos combustíveis em até 25%. Assim, afetando diretamente o caixa dos operadores. Como consequência, o setor adotou uma postura mais cautelosa em relação à expansão e renovação de ativos.
Ainda assim, a expectativa para o segundo semestre de 2026 é mais positiva, segundo Walter Barbosa. A indústria aposta em três vetores para destravar o mercado. Uma possível redução dos juros, avanço de programas governamentais de incentivo à descarbonização, como o Mover, e a realização da LatBus, que deve apresentar novas soluções tecnológicas com foco em eficiência e custo total de operação.
Tecnologia entra como diferencial competitivo
Mesmo com o ambiente desafiador, as fabricantes continuam ampliando a oferta tecnológica. Na linha rodoviária, a Mercedes-Benz apresentou o O500 com sistemas avançados de segurança já integrados, como nos modelos 8×2, sem custo adicional direto ao operador.
Além disso, serviços digitais passam a ganhar protagonismo. A Mercedes-Benz, por exemplo, oferece o sistema FleetBus gratuitamente por um ano para novos clientes, reforçando a estratégia de fidelização baseada em conectividade e gestão de desempenho.
Dessa forma, a fabricante da estrela tenta equilibrar dois fatores críticos. Ou seja, a necessidade de reduzir emissões e a pressão por eficiência financeira.
Todavia, entre limitações de infraestrutura e custo de capital elevado, a transição energética no transporte coletivo brasileiro deve avançar, segundo o executivo da Mercedes-Benz. “Mas em um ritmo mais pragmático e adaptado à realidade do País”, diz.
















