O transporte de produtos perigosos vive um momento de transformação. Enquanto novas tecnologias chegam ao mercado em ritmo acelerado, as regras que regem a movimentação dessas cargas passam por atualizações para acompanhar uma realidade cada vez mais complexa. Nesse cenário, especialistas alertam que o sucesso das operações dependerá menos de ações isoladas e mais da integração entre todos os elos da cadeia logística.
A discussão ganhou força com as revisões regulatórias em andamento. Ou seja, o que inclui a consulta pública sobre a Resolução nº 5.998 da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que estabelece as regras para o transporte rodoviário de produtos perigosos. Do mesmo modo, o mercado acompanha o avanço de tecnologias como baterias de íons de lítio e de fosfato de ferro-lítio, que já provocam debates em diversos modais devido ao aumento de incidentes registrados ao redor do mundo durante o transporte.
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Segundo Leonardo Lopes Bezerra, consultor em materiais perigosos e especialista em certificação e conformidade de embalagens, o setor precisa acelerar sua adaptação às novas demandas.
“Lá fora essas mudanças acontecem em uma velocidade muito maior. O mercado brasileiro precisa acompanhar essa evolução porque ela impacta diretamente a cadeia logística. Assim como os embarcadores e os transportadores”, afirma.
Embalagem inadequada aumenta os riscos
Todavia, ao contrário do que muitos imaginam, grande parte dos problemas não está necessariamente relacionada à qualidade da embalagem. Mas à escolha incorreta da solução para determinada operação.

De acordo com Bezerra, um produto corrosivo transportado por longas distâncias, por exemplo, pode permanecer semanas em trânsito até chegar ao destino final. Se a embalagem não considerar fatores como tempo de viagem, exposição ambiental e características químicas da carga, aumentam as chances de avarias, vazamentos e acidentes.
O especialista explica que muitas empresas concentram esforços no desenvolvimento do produto e deixam as questões logísticas para o fim do processo. Como resultado, surgem problemas que poderiam ser evitados ainda na fase de projeto.
“Frequentemente a embalagem é definida nos últimos minutos do processo. O produto está pronto e o marketing está estruturado. Mas ninguém avaliou como aquilo deve ser transportado. Depois aparecem os problemas”, diz.
Além dos prejuízos operacionais, falhas de acondicionamento podem gerar multas. Do mesmo modo, danos ambientais e impactos à imagem das empresas envolvidas.
Responsabilidade não termina no embarque
Embora o embarcador tenha papel fundamental na definição da embalagem e na classificação da carga, a regulamentação distribui responsabilidades por toda a cadeia logística. Isso significa que transportadores, operadores logísticos, centros de distribuição e destinatários também precisam conhecer os riscos associados aos produtos movimentados.
Segundo Bezerra, a legislação estabelece responsabilidades específicas para cada elo. Por isso, aceitar uma carga sem verificar suas condições ou sem entender suas características pode representar um risco significativo para o transportador.
“A responsabilidade é compartilhada. Se um elo não funciona, toda a cadeia fica comprometida”, afirma.
Assim, na avaliação do especialista, a principal palavra para o setor atualmente é informação. Dessa forma, empresas que conhecem suas operações conseguem tomar decisões mais seguras e reduzir riscos ao longo do transporte.
Comércio eletrônico leva produtos perigosos para a última milha
Outro desafio crescente envolve a expansão do comércio eletrônico. Hoje, produtos classificados como perigosos chegam diariamente às residências brasileiras sem que muitos consumidores sequer percebam.
Equipamentos eletrônicos, baterias, patinetes elétricos, bicicletas elétricas e diversos dispositivos de armazenamento de energia fazem parte dessa nova realidade.
Segundo Bezerra, essa mudança exige um olhar mais atento para a chamada última milha, etapa em que a carga deixa os grandes centros de distribuição e segue para o consumidor final.
“Hoje você compra um produto pela internet e recebe em casa algo que possui classificação para transporte. Muitas vezes as pessoas não percebem os riscos envolvidos nesse processo”, explica.
O especialista destaca que a preocupação não deve se limitar ao caminhão utilizado na transferência entre centros logísticos. O armazenamento, o carregamento, o descarregamento e os veículos empregados nas entregas urbanas também precisam integrar a estratégia de segurança.
Motorista continua no centro da operação
Apesar do avanço da tecnologia embarcada nos veículos, Bezerra acredita que o fator humano seguirá como peça central para a prevenção de acidentes.
Na visão dele, o motorista precisa atuar como protagonista da segurança operacional, com autonomia para identificar irregularidades e interromper operações quando necessário. “O motorista é como o capitão de um navio. Ele precisa entender a operação, conhecer os riscos e saber quando uma carga não pode seguir viagem”, completa.
Por isso, programas de capacitação contínua ganham importância crescente. O especialista avalia que o setor avançou significativamente nas últimas décadas. Mas ainda existe uma lacuna entre conhecer a existência dos riscos e compreender exatamente quais procedimentos devem ser adotados.
Conformidade deixa de ser burocracia
As mudanças regulatórias em discussão acompanham uma tendência internacional que trata a conformidade técnica como um diferencial competitivo. Questões relacionadas à classificação de produtos, homologação de embalagens, documentação e treinamento passam a influenciar diretamente custos, produtividade e acesso a mercados.
Segundo Bezerra, empresas que dominam esses processos reduzem rejeições de carga, evitam retrabalhos e aumentam a previsibilidade das operações.
“Segurança não é negociável. Não adianta olhar apenas para o caminhão ou apenas para o motorista. É preciso enxergar toda a cadeia logística”, afirma.
Para o especialista, o futuro do transporte de produtos perigosos passa pela integração entre embarcadores, transportadores, operadores logísticos, órgãos reguladores e entidades setoriais. Somente dessa forma será possível acompanhar a evolução tecnológica do mercado sem comprometer a segurança das operações.
“Ainda existem focos de conformidade. O desafio agora é fechar todos os elos dessa cadeia”, conclui.














