O transporte rodoviário brasileiro entrou definitivamente na era da transição energética. Porém, antes de trocar o diesel por caminhões elétricos ou movidos a biometano, embarcadores e transportadoras precisam resolver um problema muito mais urgente. Ou seja, a ineficiência operacional. Essa é a avaliação de Edson Guimarães, CEO da LOTS Group, na América Latina.
Segundo o executivo, o setor ainda perde dinheiro com caminhões parados, operações desorganizadas, baixa produtividade e uso inadequado dos ativos. Como consequência, muitas empresas encontram dificuldades para escalar projetos sustentáveis.
“Hoje, o grande entrave não é apenas o preço do caminhão verde. Ou seja, a gás ou elétrico. O problema está em como tornar essa operação eficiente para financiar a transição energética”, afirma.
VEJA TAMBÉM:
Foton acelera rede, dobra pós-venda e mira 4 mil caminhões no Brasil em 2026
Pós-venda da Mercedes-Benz mantém ritmo de crescimento na América Latina
XCMG terá caminhão elétrico E7-95T de 750 cv para operações no off-road
Startup criada pela Scania aposta na logística do futuro
Criada há dez anos pela Scania, a LOTS Group, nasceu com a missão de acelerar a transformação logística por meio de tecnologia, gestão operacional e sustentabilidade. No Brasil há mais de oito anos, a empresa atua como integradora logística e trabalha principalmente com embarcadores interessados em reduzir emissões sem aumentar o custo do frete.
Segundo Guimarães, a companhia entra justamente para organizar um ecossistema que ainda gera insegurança no mercado.
“O diesel já possui um ecossistema pronto. Já o verde exige planejamento, infraestrutura, parceiros e gestão operacional muito mais eficiente”, explica.
Além disso, a empresa conecta fornecedores de caminhões, operadores logísticos, financiadores, infraestrutura energética e soluções digitais dentro de um único projeto.
Caminhão caro parado virou problema invisível
Na visão do executivo, muitas empresas ainda não perceberam quanto dinheiro perdem diariamente com ineficiência logística.
Nesse sentido, Guimarães afirma que diversos embarcadores convivem com operações em que caminhões permanecem seis, oito ou até dez horas parados aguardando carga ou descarga.
“Existe a falsa sensação de que o caminhão parado não gera custo. Porém, isso já está embutido no frete”, conta.
Por isso, a LOTS Group, aposta em aumento de produtividade para financiar a migração energética. Na prática, a estratégia consiste em fazer o mesmo caminhão rodar mais. Assim como transportar mais carga e reduzir desperdícios.
Consequentemente, o ganho operacional ajuda a compensar o investimento mais alto exigido por tecnologias verdes.
Biometano ganha força no transporte pesado do País
Embora a eletrificação avance globalmente, Guimarães acredita que o Brasil seguirá um caminho diferente da Europa. Em outras palavras, segundo ele, o biometano deve ocupar papel estratégico na descarbonização do transporte pesado.
“O Brasil mostra que a logística sustentável não depende apenas da eletrificação”, afirma.
De acordo com o executivo, o biometano já aparece como solução viável. Sobretudo, em operações ligadas ao agronegócio e ao setor sucroenergético. Além disso, várias empresas começam a investir em infraestrutura própria de abastecimento para garantir autonomia operacional e previsibilidade de custos.
“Você precisa habilitar o ecossistema verde. Sem abastecimento, sem infraestrutura e sem planejamento, a operação não escala”, reforça.
Agro acelera transição energética
Ademais, o agronegócio brasileiro virou um dos principais laboratórios da logística sustentável no País. Segundo Edson Guimarães, operações fora de estrada facilitam a implementação de novas tecnologias porque trabalham em ambientes mais controlados.
A primeira operação da LOTS Group no Brasil surgiu justamente no setor sucroenergético. Desde então, a empresa expandiu projetos ligados ao biometano, eletrificação e otimização logística no agro.
Recentemente, a companhia renovou um contrato de longo prazo em uma operação agrícola. Como resultado, substituiu parte da frota movida a diesel por caminhões verdes. Agora, 45% da operação utiliza tecnologias sustentáveis.
Além disso, o executivo destaca que o próprio agro brasileiro pode produzir o combustível usado na frota, criando um ciclo energético praticamente fechado.
ESG avança, mas escala ainda trava mercado
Apesar do avanço das metas ambientais, Guimarães afirma que muitas empresas ainda operam apenas em fase de testes quando o assunto é logística verde. Segundo ele, o mercado já aceita pagar mais caro por pilotos e projetos experimentais. Entretanto, a dificuldade aparece no momento de escalar a operação.
“O desafio está em sair de cinco ou dez caminhões verdes para cinquenta ou cem unidades”, afirma.
Nesse cenário, o TCO (custo total de operação) continua no centro das decisões. Por isso, o CEO defende que eficiência logística precisa caminhar junto da sustentabilidade. Sem produtividade, segundo ele, nenhuma tecnologia verde consegue ganhar escala de verdade no transporte brasileiro.
















