Diretor da Anacirema Transportes vê 2026 como teste de eficiência no TRC

175

O transporte rodoviário de cargas (TRC) chega a 2026 cercado por desafios macroeconômicos, mudanças regulatórias e pressão crescente por eficiência operacional. Para José Alberto Panzan, diretor da Anacirema Transportes, o setor seguirá refletindo diretamente o ritmo da economia brasileira. Mas exigirá decisões cada vez mais racionais por parte das empresas.

“O TRC é o termômetro da economia. Se a economia aquecer, o transporte vai bem. Se não aquecer, o setor sente imediatamente”, diz o executivo. Segundo ele, o próximo ano combina fatores que tendem a limitar a produtividade, como calendário carregado de feriados, Copa do Mundo, eleições e o início da transição da reforma tributária.

Ainda assim, Panzan evita um discurso pessimista. “Vai ser um ano desafiador, mas com oportunidades claras para empresas bem estruturadas. Ou seja, com gestão profissional, uso intensivo de dados e relação sólida com clientes.”

VEJA TAMBÉM:
Para Geraldo Alckmin, com Move Brasil, 2026 será melhor para caminhões
2026 e tendências: juros e novas demandas redesenham o transporte
Falta de motorista: valorizar o caminhoneiro vira diferencial competitivo

Demanda estável, custos sob vigilância

Diretor da Anacirema Transportes vê 2026 como teste de eficiência no TRC
Anacirema Transportes projeta crescimento com cautela em um ano de desafios para o TRC

De acordo com o diretor da Anacirema Transportes, a expectativa para 2026 é de demanda relativamente estável. Mas acompanhada de pressão permanente por eficiência. Nesse cenário, controlar custos deixa de ser uma opção e passa a ser condição de sobrevivência.

“A margem no transporte nunca foi alta. Então, qualquer decisão precisa passar por conta, planejamento e análise de custo total de operação”, diz.

Nesse contexto, o executivo avalia que a principal variável de risco continua sendo o custo do dinheiro. Mesmo com programas de estímulo ao crédito, como o Move Brasil, o ambiente de juros elevados segue como freio para investimentos mais agressivos em frota.

“O crédito existe. O problema não é oferta, é taxa. Em um mercado instável, dar um passo maior que a perna pode custar caro.”

Renovação de frota exige cautela, não impulso

A experiência recente da Anacirema ilustra essa postura conservadora. Na Fenatran 2024, a empresa havia feito pedidos de caminhões com entrega prevista para o início de 2025. No entanto, diante do cenário de juros elevados, parte do pedido foi cancelada.

“Não foi uma decisão confortável, mas necessária. Honramos mais da metade do pedido e usamos cartas de crédito de consórcio. Do mesmo modo, realocação de investimentos para concluir o restante”, explica.

Para Panzan, o erro histórico do setor foi confundir crédito farto com crescimento sustentável. “Já vivemos um período de oferta excessiva de crédito, muitos entrantes no setor e, depois, um ciclo forte de inadimplência. Isso afeta todo mundo.”

Locação de veículos ganha espaço no planejamento

Assim, a locação de caminhões passou a ocupar papel estratégico no planejamento da empresa. Nesse sentido, cerca de um terço da frota da Anacirema, entre 150 e 160 veículos, é locada.

“É uma alternativa que usamos há cerca de quatro anos e que trouxe bons resultados”, afirma. Apesar do aumento expressivo nos custos de locação — contratos novos ficaram até 50% mais caros —, a modalidade ainda apresenta bom custo-benefício em determinadas operações.

“A vantagem é a agilidade. Se surge um novo projeto, a locação atende imediatamente. A compra leva tempo.”

Segundo Panzan, a decisão entre comprar ou alugar deixou de ser ideológica. “Hoje, o caminhão é ferramenta. Se é próprio ou locado, não importa. O que importa é o resultado que ele entrega.”

Diretor da Anacirema Transportes vê 2026 como teste de eficiência no TRC
Para José Alberto Panzan, diretor da Anacirema Transportes bons negócios exigem mais gestão e menos impulsos

Reforma tributária tende a acelerar profissionalização

Outro fator estrutural que deve redesenhar o setor é a reforma tributária. Para o executivo, o novo modelo tende a onerar o transporte no curto prazo. Mas também deve reduzir distorções históricas.

“Quem já trabalhava com as contas na ponta do lápis talvez sinta menos. Quem atuava fora das quatro linhas vai ter dificuldade”, diz.

Ao mesmo tempo, Panzan destaca aspectos positivos do novo sistema, como a vinculação do pagamento de impostos ao recebimento do cliente. O que pode aliviar o caixa em contratos com prazos mais longos. “No fim, vai valer uma regra única. Ou faz certo ou não faz.”

Gestão, dados e tecnologia viram diferencial competitivo

Se o ambiente macro impõe limites, o diferencial competitivo passa a ser interno. Para Panzan, gestão baseada em dados deixou de ser luxo e virou pré-requisito.

“Não dá mais para analisar operação olhando para trás uma semana depois. A decisão precisa ser imediata”, afirma.

Telemetria, torre de controle, monitoramento de jornada, consumo, velocidade e tempos de carga e descarga passaram a sustentar negociações com clientes. “Sem dado, não há argumento. Com dado, você consegue discutir eficiência e até reajuste.”

Segundo ele, muitas perdas operacionais ainda estão dentro das próprias empresas. “O simples bem feito gera resultado. Planejamento reduz desperdício.”

Crescimento da Anacirema Transportes virá da base atual e de novos projetos

A Anacirema Transportes projeta um avanço de até 10% em 2026. O crescimento deve vir tanto da expansão dentro da base atual de clientes quanto da entrada em novos projetos, ainda que dentro de segmentos de atuação como papel, pneumáticos e alimentos.

“O mercado mudou. O cliente compra menos volume por pedido e faz mais entregas. Hoje, temos desde VUC até carreta na mesma operação dedicada”, explica.

Segundo Panzan, a empresa não pretende mudar radicalmente seu escopo. Todavia, visa ampliar o leque de soluções para acompanhar o novo perfil de consumo.

Eletrificação avança, mas ainda não fecha a conta

A Anacirema opera hoje dois caminhões elétricos em distribuição urbana. A decisão, segundo Panzan, não veio de exigência do cliente, mas de uma avaliação estratégica. “Eles não se pagam sozinhos. Funcionam quando entram em uma operação dedicada ou diluídos em uma frota maior”, afirma.

Mas apesar das vantagens em manutenção, como ausência de troca de óleo e filtros, o alto custo de aquisição, a limitação de autonomia e a infraestrutura ainda restrita seguem como obstáculos. “Descarbonizar não é só comprar caminhão elétrico. Rodar menos vazio, planejar melhor e operar com Euro 6 já gera ganho ambiental relevante.”