A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a pressionar o mercado internacional de petróleo e já levanta preocupações no transporte rodoviário de cargas. O aumento do risco na região, especialmente no Estreito de Ormuz, rota por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, segundo a U.S. Energy Information Administration (EIA) — reacendeu o alerta entre transportadores e analistas do setor sobre preço do diesel e do frete.
Além disso, a instabilidade já provoca reflexos no comércio global. Mais de 170 navios permanecem retidos em corredores estratégicos de escoamento, enquanto operadores logísticos começam a redesenhar rotas marítimas para evitar áreas de maior risco.
Como resultado, o preço do petróleo já reagiu à escalada do conflito. De acordo com informações da Reuters, o barril chegou a superar US$ 83, após alta de cerca de 13% nos primeiros dias da crise.
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FETCESP alerta para pressão sobre o diesel
Nesse sentido, no Brasil, entidades do transporte já monitoram os efeitos do aumento do petróleo. A Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP) avalia que a instabilidade internacional pode pressionar os preços dos combustíveis e ampliar os custos logísticos.
Segundo Carlos Panzan, presidente da entidade, o setor já opera sob forte pressão de custos.
“O transporte rodoviário paulista já trabalha com margens apertadas e enfrenta desafios estruturais. Quando o combustível sobe de forma expressiva, as empresas precisam renegociar contratos. Do mesmo modo, rever tabelas de frete e lidar com um ambiente de maior insegurança econômica”, afirma.
O diesel representa uma das maiores parcelas do custo operacional das transportadoras. Por isso, qualquer aumento no combustível tende a impactar rapidamente o equilíbrio financeiro das empresas. Além disso, a alta do frete costuma se espalhar por toda a economia, influenciando o preço de alimentos, medicamentos, insumos industriais e bens de consumo.
Diesel pode subir, mas impacto tende a ser gradual
Mesmo com a pressão internacional, especialistas avaliam que o repasse ao consumidor brasileiro não ocorre de forma imediata ou integral. Segundo Gregori Boschi, sócio-diretor da consultoria BIM3, o impacto depende principalmente do chamado pass-through. Ou seja, do repasse do preço internacional do petróleo para o mercado doméstico.

Simulações da consultoria indicam que um aumento de 10% no preço do barril Brent pode gerar alta de 3% a 7% no diesel nas bombas, normalmente com defasagem de algumas semanas até dois meses.
Esse repasse ocorre de forma parcial porque o preço final inclui impostos, mistura de biocombustíveis e margens de distribuição. “O repasse do Brent para o preço doméstico costuma ser incompleto e pode ser suavizado no curto prazo”, explica Boschi.
Frete tende a subir com atraso
Como o diesel representa o principal custo do transporte rodoviário, qualquer variação no combustível acaba refletindo nos preços do frete. Assim, dados analisados pela BIM3 mostram que o diesel responde por cerca de 35% do custo operacional do transporte de cargas.
Nesse cenário, uma alta de 3% a 7% no diesel poderia provocar aumento de 1% a 3% no valor médio do frete por quilômetro, geralmente com atraso de um a três meses. Todavia, esse movimento costuma ocorrer de forma gradual, pois transportadoras renegociam contratos e ajustam tabelas de frete ao longo do tempo.
Mercado de caminhões já enfrenta desafio estrutural
Mesmo antes da crise internacional, o mercado brasileiro de caminhões já enfrentava desafios importantes. Para Ricardo Balistiero, economista e coordenador do Núcleo de Negócios do Instituto Mauá de Tecnologia, o setor convive há mais de uma década com excesso de oferta de transporte.
Segundo ele, esse cenário surgiu após a ampliação de linhas de crédito subsidiadas que incentivaram a compra de caminhões no passado.
“Há cerca de dez anos, linhas de crédito subsidiadas estimularam muitas pessoas a comprar caminhões. Isso acabou gerando um excesso de oferta de frete que ainda pressiona os preços no mercado brasileiro”, afirma Balistiero.
Além disso, a volatilidade do diesel historicamente compromete a rentabilidade das operações. “Como o Brasil é um país continental, muitas vezes o transportador fecha um frete do Sul para o Norte e, até chegar ao destino, o preço do diesel muda várias vezes. Isso compromete diretamente a margem da operação”, explica.
Política da Petrobras será determinante
Para Volney Gouveia, gestor adjunto da Escola de Negócios e coordenador do curso de Ciências Econômicas da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), o impacto da crise no Brasil dependerá principalmente da estratégia da Petrobras.
“O impacto da guerra sobre o preço do diesel vai depender das decisões da Petrobras. O Brasil tem relativa autonomia na produção de derivados. Embora importe cerca de 25% do que consome”, afirma.
Ademais, o país consome cerca de 71 bilhões de litros de diesel por ano. Dos quais 56 bilhões são utilizados pelo transporte rodoviário.
Dessa forma, caso uma alta internacional próxima de 15% no barril seja totalmente repassada ao mercado doméstico, o custo adicional para o setor poderia chegar a R$ 50 bilhões por ano, segundo estimativas do economista.
Incerteza pode frear investimentos
A instabilidade internacional também tende a influenciar decisões estratégicas no setor de transporte. Segundo Gouveia, conflitos geopolíticos costumam aumentar a cautela das empresas.
“Todo conflito internacional gera instabilidade econômica e leva empresas a adiar projetos e investimentos”, afirma.
Ainda assim, o desempenho do mercado de caminhões dependerá da atividade econômica interna. Caso o Brasil mantenha crescimento próximo de 2,5% ao ano, a demanda por caminhões pode continuar relativamente estável.
Setor pede previsibilidade
Assim, diante desse cenário, entidades do transporte defendem maior previsibilidade na política de preços dos combustíveis.
Segundo a FETCESP, a instabilidade dificulta a formação de contratos de médio e longo prazo. Reduz a capacidade de investimento das transportadoras e aumenta os riscos operacionais do setor.
“Defendemos previsibilidade e equilíbrio na política de preços para que o transporte rodoviário continue cumprindo seu papel essencial na economia brasileira”, afirma Panzan.

















