A transformação tecnológica do transporte de cargas no Brasil não virá de uma solução única. Ao contrário, será construída por um mosaico de motores, combustíveis e modelos de negócio adaptados à realidade econômica e energética do País. É essa a leitura de Cristian Malevic, diretor da Tupy MWM, ao detalhar como a companhia se reposicionou após a aquisição da MWM pela Tupy, em 2022, e passou a atuar como fornecedora de soluções completas em motores, energia e serviços.
A Tupy, tradicionalmente reconhecida como líder global na fundição de blocos e cabeçotes, com forte presença nos Estados Unidos e na Europa, decidiu avançar na cadeia de valor. Em vez de entregar apenas componentes estruturais, passou a oferecer usinagem, montagem, testes e desenvolvimento completo de motores.
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Para isso, encontrou na MWM um ativo estratégico. Afinal, são mais de 70 anos de experiência em engenharia de motores e o maior centro de desenvolvimento da América Latina, com autonomia tecnológica instalada no Brasil.
Da fundição à solução completa
Assim, ao integrar a MWM, a Tupy deixou de ser apenas fornecedora de peças para se tornar prestadora de serviços de alto valor agregado. Dessa forma, além de blocos e cabeçotes, passou a entregar motores parcialmente ou totalmente montados, reduzindo custos logísticos e aumentando eficiência para montadoras globais.
Além disso, a Tupy incorporou capacidade própria de engenharia. Hoje, o grupo desenvolve motores, conduz testes de durabilidade, atua na homologação e entrega melhorias de consumo e emissões como serviço. Esse movimento rompeu uma dependência histórica de matrizes estrangeiras e ampliou a atuação para além do transporte rodoviário. Assim, alcançando máquinas agrícolas, equipamentos de construção e aplicações fora de estrada.
Descarbonização viável como estratégia
No centro dessa transformação está um conceito-chave. Ou seja, o da descarbonização viável. Para Malevic, nenhuma tecnologia avança se não fechar a conta econômica do operador. Por isso, a Tupy MWM concentrou esforços em soluções que reduzem emissões, mas também o custo por quilômetro rodado.
É nesse contexto que o biometano ganha protagonismo. A empresa desenvolveu motores dedicados ao combustível e, ao mesmo tempo, estruturou uma engenharia capaz de produzir, purificar e comercializar o biometano. Assim, o grupo não vende apenas o motor, mas a solução energética completa.
Hoje, o portfólio cobre potências de 120 a 570 cv, atendendo desde caminhões médios até aplicações mais pesadas, sempre voltadas ao mercado brasileiro e latino-americano. Além disso, a capilaridade da rede MWM, com cerca de 700 pontos de peças e serviços, conta com amplo suporte de pós-venda.
Biometano e a vantagem competitiva brasileira
O avanço do biometano no Brasil tem base estrutural. O País é o maior exportador mundial de carne bovina e aves e um dos maiores produtores de suínos. Todo esse sistema gera resíduos orgânicos em larga escala. Soma-se a isso a liderança global na produção de etanol de cana-de-açúcar, que gera grandes volumes de vinhaça.
Esse conjunto posiciona o Brasil como um dos maiores produtores potenciais de biomassa do mundo. Ao transformar resíduos em biometano, cria-se um círculo virtuoso. Ou seja, o resíduo vira combustível, o combustível move caminhões e ônibus, e o digestato retorna ao campo como fertilizante com melhor qualidade agronômica.
Na prática, isso já acontece. Em aterros sanitários, o metano antes queimado agora é purificado e usado para abastecer os próprios caminhões de coleta de lixo. O excedente, por sua vez, pode alimentar frotas de ônibus urbanos. Assim, a cidade passa a produzir parte do combustível que consome.
Retrofit e economia operacional
Outro vetor importante é o retrofit de caminhões e ônibus a diesel para operação a gás ou biometano. Diferentemente das conversões simples, o processo realizado pela engenharia da Tupy MWM envolve a substituição do motor por outro desenvolvido especificamente para o novo combustível, garantindo torque e potência equivalentes ao diesel.
Embora a idade do veículo não seja o fator limitante, a viabilidade econômica começa a partir de modelos Euro 3, fabricados a partir de 2004. Nesse universo, o payback depende diretamente da quilometragem rodada. Veículos que percorrem entre 300 e 400 quilômetros por dia costumam recuperar o investimento entre dois e três anos.
Multienergia como destino inevitável
Para Malevic, o Brasil seguirá um caminho multienergético. Biometano, diesel com maior teor de biodiesel, híbridos, eletrificação e, no futuro, hidrogênio e etanol em nichos específicos vão coexistir. Cada tecnologia terá seu espaço conforme a vocação regional, a infraestrutura disponível e o perfil da operação.
O transporte urbano confinado tende a migrar mais rapidamente para soluções elétricas, híbridas ou a gás. Já o transporte rodoviário de longa distância seguirá majoritariamente no diesel, ainda que cada vez mais “verde”. No campo, a tendência é eliminar o diesel da produção de biocombustíveis, fechando ciclos energéticos dentro das próprias usinas.
Na visão da Tupy MWM, a agenda dos combustíveis do futuro representa um passo nessa direção. Ao alinhar governo, indústria, produtores e distribuidores, o País reduz riscos e cria condições para escalar tecnologias que já fazem sentido econômico e ambiental.
Dessa forma, a transição energética no transporte brasileiro não será disruptiva, mas incremental. E, nesse processo, o motor, agora redesenhado, multifuel e integrado ao ecossistema energético, volta ao centro da estratégia industrial.

















